Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

TORCER

Por João Malaia (@ArqPalestra)

Há muito tempo, o futebol vem se transformando em um esporte elitista e voltado para atender as necessidades de grandes emissoras de televisão pelo mundo afora. Há jornalistas trabalhando em grandes emissoras que, inclusive, defendem a elitização dos próprios estádios.

Parte desse processo de elitização está no aumento dos ingressos e no fim dos espaços reservados para aqueles que não podem pagar fortunas para ir ao estádio. O preço dos ingressos vem subindo gradativamente. Agora, para ter ingresso para um jogo mais importante, o cara, além de pagar mais caro, precisa se associar a um programa de sócio-torcedor, ou pagar fortunas para cambistas oficiais (agência de viagens), virtuais (vendem ingresso no Mercado Livre, na cara dura!) ou não-oficiais oficiais (todos que recebem ingressos de diretores e conselheiros para revender). Pagamos uma fortuna por um mísero ingresso. E pior, no Brasil não existe um pequeno setor do estádio com ingressos a preços populares. Esse espaço é crucial para que os estádios continuem a ter a presença daqueles que são atores no espetáculo: os torcedores.

Não sei se vocês sabem, mas “torcedor” no sentido esportivo da palavra, só existe no Brasil. É dos poucos termos genuinamente brasileiros dentre tantos “abrasileiramentos” dos termos do futebol (football). Lá no início do século XX, os jornais começaram a chamar aos espectadores, ao público de futebol de “torcedores”. O termo vinha das gerais (as extintas gerais) e das arquibancadas e logo tomou conta dos textos dos periódicos brasileiros.

Passou a integrar os dicionários de Língua Portuguesa editados no Brasil e, aos poucos, seu significado foi mudando. Em 1926, no Novo Dicionario Encyclopedico Illustrado da Língua Portugueza, de autoria de João Ribeiro, torcer era “animar com gestos a victória dos jogadores”.

Em 1939, Laudelino Freire publicou seu Grande e Novíssimo Diccionário da Língua Portuguesa e torcer passou a ser “trabalhar para favorecer alguém em prejuízo de outro, desejar os proveitos de alguém, em detrimento de outrem” e “desejar a vitória de um grupo desportivo, gritando ou gesticulando”. Trabalhar para favorecer alguém… trabalhar, Palmeirenses!

Em 1949, Orlando Mendes de Moraes escreveu uma edição compacta de um dicionário para ser usado nas escolas ginasiais do país, o Dicionário Ginasiano Brasileiro de Língua Portuguesa. O que os alunos das escolas ginasiais brasileiras aprendiam é que “torcer” ganhava um significado ainda mais especial: “pugnar pela vitória de seu clube desportivo”.

Família Palestrina, vocês sabem o que significar “pugnar”? Todo mundo deve saber o que é “impugnar”, impedir. Ou seja, “pugnar” é exatamente o contrário de impedir, é lutar de maneira veemente para que algo aconteça. Vem do latim “pugnus”, punhos, portanto façam a associação que quiserem.

Agora, outra pergunta: alguém acredita mesmo que se pode torcer, que se pode “trabalhar para favorecer alguém em detrimento de outrem” ou “pugnar pela vitória do seu clube” na frente de uma televisão, sentado em um sofá? Desculpem amigos, mas dessa maneira vocês podem simpatizar, gostar, apoiar, incentivar, acreditar que estão gerando audiência e isso gera mais dinheiro para o clube que o beneficia, ou o caralho, mas não torcer. Torcer envolve a participação direta, um ato de fé em que as suas ações do lado de fora do campo de jogo podem influenciar no comportamento dos jogadores e, consequentemente, no resultado da partida.

Não adianta amigos. Não vim aqui dizer que quem não vai a estádio gosta mais ou menos do Palmeiras. Não vim aqui para afirmar que quem não vai a jogos por morar em outra cidade, ou outro estado, como eu, tem menos ou mais amor pelo time. Vim aqui expor aquilo que acho, fruto de experiência e, até posso dizer, algum estudo no tema. O torcedor tem que ter em mente que o seu papel é dentro do estádio, pulando, gritando e se fazendo ouvir pelos seus jogadores e pelo adversário.

E como está sendo tratado o torcedor do Palmeiras, o que trabalha, o que pugna pela vitória? Ora, nesta semana a Rede Globo mudou um jogo do Palmeiras que estava marcado há mais de três meses para um domingo, 16h, para o dia anterior, às 18h30. Tudo porque acredita que o jogo do lixo contra o Bahia, em Salvador, pode dar “mais audiência”. Essa situação prejudica sobremaneira os torcedores. Alguns, como o Rodrigo Barneschi (@forzapalestra), pegam a tabela do campeonato no começo do ano e aproveitam promoções de passagens aéreas para compra-las a um preço mais em conta, planejando seus deslocamentos pelo país.

Escolados, torcedores assim nem compram todas as passagens que queriam e poderiam comprar. Só compram essas passagens para jogos que acreditam que não serão alterados, por exemplo, um Cruzeiro e Palmeiras, domingo, 16h (teoricamente, o jogo que passaria no tradicional horário da Rede Globo para São Paulo: jogo fora de SP, grandes clubes envolvidos, nenhum outro jogo envolvendo clubes de grande torcida para passar). Ao anteciparem o jogo, lá fica o torcedor na mão com o prejuízo de alterar ou cancelar a data do vôo.

Isso não é a primeira vez que acontece. Em 2009, isso aconteceu comigo, em um jogo Grêmio e Palmeiras, pelas últimas rodadas daquele Brasileiro. O jogo estava também marcado para domingo, 16h e foi antecipado para sábado 18h30. Eu havia comprado passagens para domingo e acabei não podendo ir no sábado e pagando R$ 200,00 para cancelar as passagens e só fui reembolsado em 50% do valor que havia pago (R$280,00). Passagens em promoção tem um alto valor de taxa de cancelamento ou alteração. Ou seja, paguei R$340,00 para NÃO viajar. E quem arca com esse prejuízo? Nós, torcedores. Tudo bem, nós já arcamos com muitos prejuízos. O problema é que gostamos de arcar com prejuízos, mas desde que nos deem a chance de ver nosso time em campo.

O que acontece hoje é que o dinheiro que é fruto da venda de ingressos vai sendo cada vez mais ultrapassado pelo que os canais de televisão estão dispostos a pagar para transmitir os jogos. Os clubes recebem adiantamentos da televisão e ficam amarrados aos seus interesses, que nada mais são que econômicos.

Por isso, qualquer desmando na tabela e alteração de dias e horários de jogos passam a ser corriqueiros, tudo para “encaixar na grade” ou “aumentar a audiência”. Jogos às 22h, no meio da semana, em grandes capitais com altíssimo índice de violência e sem transporte público após a meia-noite não pode ter nada a ver com a ótica daquele que pugna pela vitória do seu time, o torcedor.

Nesta semana, não por causa da Globo, mas por causa da nossa diretoria, fui prejudicado mais uma vez. Agora foi a mudança do jogo do Pacaembu para Barueri. Como coloquei no post anterior, comprei passagens para mim e para meu filho para quinta-feira à tarde e com a mudança do jogo para Barueri, ficou inviável chegar ao estádio a tempo. Ainda não sei o que falar para o Henrique.

Se a Rede Globo, o câncer da sociedade brasileira, toma sempre o partido do time lá da Marginal s/n, esperávamos que a diretoria tomasse o nosso lado. O lado daqueles que pugnam pela vitória do time de futebol. Quem torce, quem já se esgoelou em um estádio de futebol, quem já empurrou uma equipe para a vitória entende perfeitamente o que estou falando.

No meu caso, é claro que me sinto menos torcedor do que aqueles que vão a todos os jogos. É claro que acho que aqueles que vão a todos os jogos devem ter prioridade na hora de adquirir ingressos para um jogo decisivo. É também claro que não vejo futebol sem torcida. Pergunte a uma criança que quer ser jogador de futebol os motivos que o levaram a ter esse desejo e ouvirão que um dos principais é poder entrar em um estádio lotado e ouvir a torcida gritar seu nome. Pergunte a algum jogador que já teve ou tem a infelicidade de jogar em estádios vazios a sua sensação quando entra em campo e não houve nada, ou quando faz um gol ouvir apenas seus companheiros gritando.

O resultado dessa equação é simples: com essas atitudes (subserviência aos desmandos de um canal de televisão e pouco caso com o conforto de seus torcedores) afastam-se dos estádios aqueles que trabalham e que pugnam pela vitória do time de futebol. É muita imbecilidade mesmo.

Você, palmeirense, que vai a jogos, provavelmente vai gostar de ler o que escrevi. Aquele que não vai, provavelmente não. Aos que não vão e não concordam, duas coisas. Primeiro, parafraseando Brecht, que posso não concordar com vocês, mas vou morrer lutando para que vocês tenham o direito de pensar do jeito que quiserem. Segundo, que ao invés de reclamarem tanto e arranjarem mil desculpas para não ir ao estádio, tentem fazer um esforço para ir de vez em quando. Junte-se à galera da torcida, cantando, pulando e vibrando. Assim você poderá entender melhor como pode trabalhar e pugnar pela vitória do seu time. Como pode ser torcedor.

Em tempo: há cerca de dois meses foi publicado um livro que aborda o ser torcedor no Brasil, desde o seu surgimento até os dias atuais. Foram quatro autores, cada um responsável por um período. Victor Andrade de Melo (final do XIX a 1910), eu (1910 a 1950), Bernardo Buarque de Hollanda (1950 a 1980) e Luiz Henrique de Toledo (1980 até atualmente). Foi publicado pela editora 7 Letras e com ele vocês podem conhecer um pouco mais dessa experiência maravilhosa e única que é ser torcedor. Detalhe: eu não ganho um puto com a venda dos livros, ok?

8 comentários em “TORCER

  1. VaL_MV (@valmir_mv)
    julho 20, 2012

    Nada se compara à “bancada”, à emoção de estar junto com seus iguais torcendo pelo mesmo time.
    Na hora do gol muitas vezes comememorar e abraçar o cara ao lado, que vc nem sabe o nome, mas é um “irmão” de Torcida.

    Me lembro dos grandes Clássicos no Morumbi, dividindo a bancada pau a pau com os LIXOS, o MAR DE BANDEIRAS, a festa.

    Isso acabou, e hoje o futebol é um tanto triste.

    Pena que os mlk’s de hoje não viveram esses tempos, nós “das antigas” sim.

    Não tinha como não se emocionar em ver o pessoal preparando as bandeiras com mastros, e depois elas entrarem juntas na bancada, não tinha como ficar indiferente a isso.

    Caraca!!! Tinha até me esquecido disso. Puta saudade!

    • arquibancadapalestrina
      julho 20, 2012

      Somos dois, Valmir. Saudades dos tempos das bandeiras. Pior é quando as pessoas defendem a elitização dos estádios mas acham linda a festa da torcida das arquibancadas. Quem faz a festa, ora bolas?

  2. VaL_MV (@valmir_mv)
    julho 20, 2012

    Eu percebo isso nos últimos anos. Há um crescente interesse, tanto de Clubes como de Emissoras como a Globo, em elitizar o futebol.
    Provavelmente a questão é financeira, já que eventualemnte as rendas de Paper View parecem mais garantidas que as dos ingressos de bilheteria.

    Como aconteceu recentemente no jogo da 1ª Final, onde as Bilheterias não foram abertas.
    Cara, houve uma época que eu saía aqui de Campinas, ia comprar o ingresso e depois voltava no dia do jogo.

    Imagine o custo disso, mas eu ía, valia à pena o esforço.Hoje as coisas não são favoráveis para que eu faça isso, mas nunca deixei de guardar esses momentos.
    Assistir um jogo em casa, as vezes sózinho, é muito chato, não dá a mesma emoção.

    São os tempos atuais, os “BAD TIME’S”.

  3. Oswaldo Rossi
    julho 25, 2012

    João,

    Há cerca de 3 anos fui ao Palestra com meu pai, como fazíamos quando eu era criança. Ao nosso lado havia uma senhora, seu filho e seu neto. Meu pai, ao ver aquela cena, me disse: “sonho em um dia virmos você, meu neto e eu ao estádio.”.

    Minha esposa está grávida de 4 meses, e até então não sabíamos qual era o sexo do bebê. Na semana passada li o seu post “Maior Palmeirense que já conheci” e enviei para minha esposa. Falei pra ela o quanto me identifiquei com o texto, pois era exatamente a forma que me sentia. Também sonho em ter um moleque, e desde cedo ensiná-lo o que é o Palmeiras, e o quanto ele deverá e irá amá-lo por toda vida.

    Mas, antes disso, preciso ter um moleque, não?

    Eis que ontem descobrimos o sexo. E sim, é um porquinho!

    Não preciso explicar minha emoção e a emoção do futuro vovô com a novidade. E o melhor: todos que me conhecem, palmeirenses ou não, já me falaram: “Nossa, imagino você já comprando camisas e mais camisas do Palmeiras!”. Ou então: “Imagino sua emoção pensando em ir ao jogo do Palmeiras com ele!”.

    Nossa parte estamos fazendo!

    Grande abraço,

    Oswaldo.

  4. William Cordeiro
    julho 25, 2012

    Tenho 20 anos e sinto inveja de vocês que viveram esses tempos magníficos nos estádios de futebol brasil a fora. Estar na bancada gritando pelo time é uma coisa de outro mundo. Sensação dos deuses! Parabéns pelo blog e pelo texto.

  5. glaubert
    julho 30, 2012

    Esse texto é puramente um lixo.
    Simplesmente por ignorar uma massa de quas e 15 milhoes de pessoas.
    O estadio cabe 30 mil, entao os outros milhoes nao sao torcedores.
    Quem nao é de sao paulo nao pode se considerar torcedor.
    Só posso lamentar a mentalidade desse blogueiro

  6. Douglas
    novembro 26, 2012

    Nesse jogo contra o Paysandu em 2004 eu estive LÁ! Foi a primeira vez que fui num estádio, acompanhado de meu pai. Foi um dos dias mais incriveis da minha vida, no gol do Pedrinho eu estava pendurado na divisória entre a área descoberta, na curva e as cadeiras cobertas, gritei e sorri como nunca na minha vida!!!

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Informação

Publicado em julho 20, 2012 por em Quando a bola não rola.

(Publicidade Gratuita até 20/05/14) #AvantiBasqueteSEP

@ArqPalestrina

  • E o PVC disse que o Brunoro agora está só no marketing do Palmeiras. AGORA VAI, PORRA!!! 3 hours ago
  • Nobre presidente: três técnicos, apenas um gestor. 3 hours ago
  • Nobre: "Demitir um técnico durante o campeonato não faz parte da nossa filosofia de trabalho". Arrãn. 3 hours ago

Agenda Palestrina

De 20/05 à 27/05:

  • - Terça-Feira (21): Basquete sub-19
    PALMEIRAS x Mogiano 20h, Gin. Palestra Italia;
  • - Quarta-Feira (22): Futsal sub-20
    Jacareí x PALMEIRAS, 20h, Jacareí;
  • - Quarta-Feira (22): Basquete sub-17
    PALMEIRAS x Aerco Basquete Osasco, 19h, Gin. Palestra Italia;
  • - Sexta-Feira (24): Basquete sub-16
    PALMEIRAS x Círculo Militar SP. 20h, Gin. Palestra Italia;
  • - Sábado (25): Futebol sub-15 e sub-17
    PALMEIRAS x Guarani, 9h e 10h45, Rua Javari;
  • - Sábado (25): Futebol
    PALMEIRAS x CAG. 16h20, Est. Novelli Junior, Itu ;
  • - Domingo (26): Basquete Sub-12, Sub-14 e Sub-15
    Internacional de Regatas x PALMEIRAS, a partir das 9h, Santos;
  • - Segunda-feira (27): Basquete Sub-19
    Hebraica x PALMEIRAS, 19h, Clube Hebraica;
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