Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

Vai fazer igual a 2002?

Por João Malaia (@ArqPalestrina)

Os Palmeirenses da minha geração, aqueles nascidos por volta da década de 1970 até o início dos 1980, tiveram uma infância doída. Era difícil ver todos os outros meninos comemorando título e o Palmeiras perdendo Paulistas para a Inter de Limeira, Bragantino, Novorizontino, entregando classificação para Ferroviária de Araraquara em casa e tantas outras lamúrias que me custaram radinhos de pilha, santinhas que minha mãe insistia em me dar, uma porta de armário, uma janela, alguns cascudos do meu pai e muitas semanas de castigo por conta das intempéries por causa do meu time.

Todas essas derrotas e revoltas só não me custaram o amor que sempre tive por este clube. A cada ano derrotado, a cada virada de temporada sem comemorar título, meu amor e meu fanatismo só aumentavam. Chegava a sonhar com o dia em que comemoraria um título, que sentiria o gosto de gritar “é campeão!”.

Esse dia demorou a chegar. Eu tinha 19 anos e, por ironia do destino, estava morando em Portugal quando o Palmeiras meteu 4 a 0 nos gambás (FDP!). Voltei para o Brasil em julho de 1993, com o Palmeiras campeão, mas sem o grito desentalado da garganta. Quando chegamos à final contra o Vitória, o dia do jogo caiu exatamente em dia de prova do vestibular da Unesp e eu não tinha como faltar. Fiz a prova em 1 hora e meia e saí para, pelo menos, ver o jogo na televisão e gritar pelas ruas.

Em 1994, aprovado para a História-USP, mudei para São Paulo e meu calvário de infância e adolescência foi retribuído com a mais espetacular fase de títulos da história do Palestra. Todos com a minha presença no estádio durante toda a temporada: Paulista 1994, Brasileiro 1994, Paulista 1996, Copa do Brasil 1998, Mercosul 1998 e Libertadores 1999. Mas a vida, apesar das glórias, também nos encarregava de colocar alguns Asas de Arapiracas pelo caminho, tomar viradas históricas em casa em finais de campeonato, como contra o Vasco e Flamengo, ou perder o Paulista em Ribeirão e apanhar da torcida adversária antes e durante o jogo.

Meu último ano em São Paulo foi 2002. Com o time à míngua e com minha mulher grávida no Rio de Janeiro, fui vendo o Palmeiras definhar. O campeonato era de tiro curto, só tinha um turno. O Palmeiras começou com um empate com o Grêmio, e 16.086 pagantes. Após outro empate com o Cruzeiro fora, 11.120 torcedores assistiram a vitória contra o São Caetano por 3 a 2 no Palestra. Animados com os resultados e com a invencibilidade de três jogos, 16.439 pagantes assistiram o início da derrocada do Palmeiras no Palestra: 4 a 0 para o Galo, que custou a cabeça do técnico Murtosa.

Depois de duas derrotas fora de casa para Atlético-PR e Paraná (esta por 5 a 1), a torcida ABANDONOU O PALMEIRAS. Em um momento crucial da competição, faríamos dois jogos em casa, contra Coritiba e Gama, e só a vitória nos interessava. Precisávamos ganhar a qualquer custo. O momento era muito parecido com o atual. O que a torcida fez? ABANDONOU O PALMEIRAS!! Contra o Coritiba, 4.874 torcedores assistiram em um Palestra às moscas o empate de 2 a 2, no sufoco, contra o Coxa. Na rodada seguinte, mais 7.132 gatos pingados no Palestra para o melancólico empate com o Gama. O time sentiu que a torcida não estava ao seu lado.

Completos imbecis foram ao estádio com nariz de palhaço e com escritos ofendendo o time para aparecerem na mídia, como estes imbecis que foram destaque na Folha de São Paulo de 8 de setembro de 2002.

É com essa mentalidade que o filho da puta vai ao estádio no momento que o time mais precisa dele? Como os jogadores se sentiram quando tiveram ao seu lado meia dúzia de gatos pingados após apenas 3 (duríssimas) derrotas?

Aí Palmeirenses, foi ladeira abaixo. Mais uma derrota para o Inter fora de casa e mais um público pífio de 7.421 espectadores para ver o Palmeiras perder para o Bahia por 2 a 1.  Mais duas derrotas seguidas para Ponte e Figueira fora de casa e o Palmeiras estava já na lanterna do campeonato. Empatamos o clássico com o Santos na Vila, mas nem isso fez a torcida compreender o seu papel. Apenas 13.049 torcedores foram empurrar o Palmeiras no Palestra para a vitória contra o Paysandu. A torcida então abraçou o time de novo para duas partidas importantes, contra o São Paulo, no Pacaembu e contra a Lusa, no Palestra. No Municipal, 24.780 torcedores assistiram ao empate contra os bambis. No Palestra, 22.180 pagantes para ver a vitória contra a Lusa.

O jogo seguinte foi fora e levamos 4 a 2 do Goiás. A partida seguinte era contra o Juventude e ainda faltavam oito rodadas para o final. E o que fez a torcida do Palmeiras? Lembrou que o time vinha de dois empates nos clássicos e de duas vitórias em casa contra Paysandu e Lusa, antes do tropeço contra o Goiás? Lembrou que o time havia ganhado 8 pontos em 15 disputados? Não! O que a torcida fez? ABANDONOU MAIS UMA VEZ O PALMEIRAS!!

Vejam só: na 19ª rodada do Brasileiro de 2002, pegamos o Juventude no Palestra. 2 a 2, para  7.832 pagantes. E voltamos para a lanterna. Pela 20ª rodada, 7.296 espectadores estiveram no Palestra para ver a nossa vitória por 4 a 2 sobre o Guarani. O time lutava bravamente dentro de campo, e depois de empatar o clássico com os gambás, venceu o Botafogo do Rio por 2 a 1, para pífios 9.721 pagantes. O Palmeiras já tinha acordado dentro de campo, mas a torcida insistia em não comparecer para dar aos jogadores a confiança necessária, a sensação de estamos todos juntos.

O Palmeiras saía da lanterna, mas dois jogos fora de casa, contra Vasco e Fluminense, aterrorizavam a torcida. Mesmo depois da derrota para o Vasco, o time teve forças para meter 3 a 0 no Fluminense, em pleno Maracanã. A torcida do Palmeiras foi convocada e lotou o Palestra para o jogo com o Flamengo. A torcida acordou e 25.101 faziam as ruas da Turiassú terem ares de final de campeonato. O time não jogou bem, o juiz colaborou com a gente (fato raro) e seguramos o empate de um a um, respirando por aparelhos. A torcida acordou, mas já era tarde. Ali era a penúltima rodada do campeonato. Se tivéssemos feito assim nos empates decisivos contra Gama, Coxa e Juventude e na derrota contra o Bahia, não precisaríamos ir para Salvador precisando da vitória contra o Vitória e de mais alguns resultados.

O Palmeiras caiu e, sinceramente, não quero escrever um post no ano que vem lembrando como o Palestra lotava nos jogos da série B. Foi disparado o ano em que eu fui a mais jogos do Palestra desde que saí de São Paulo.

Chegou a hora, torcida. Dois jogos em casa, contra Grêmio e Sport, para lotar o estádio e mostrar que estamos juntos com o time, que estamos com eles que agora há pouco levantaram um brilhante caneco de maneira invicta, nos levando de volta à Taça Libertadores, nossa obsessão.

Dois jogos, como os que tivemos há dez anos contra Coxa e Gama e quando deixamos o Palmeiras na mão. Como alguns de vocês sabem, eu moro no Rio e trabalho parte da semana em São Paulo. Quarta estive no jogo contra a Lusa. Cheguei ontem no Rio e tive uma conversa séria com minha amada esposa. Precisava voltar para São Paulo no sábado para torcer pelo Palmeiras. Não poderia abandonar meu time em uma hora dessas. Comprei as passagens ontem: 250 pila, voltando na madrugada de domingo, para passar o dia com a família.

Mas amanhã vai ser dia de Palestra. Ela sabe o que isso significa para mim. Se não soubesse, não me apoiaria a ir ao estádio na mesma hora e não estaria casada comigo há 14 anos.

Cabe a você agora fazer o que achar melhor e usar os exemplos da história para tirar suas conclusões e agir. A torcida do Fluminense lotou o Maracanã com 70 mil pessoas todo jogo em 2009 e não caiu. A nossa, ABANDONOU O TIME e o Palmeiras passou o maior vexame de sua história em 2003.

E você? Vai fazer o que?

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3 comentários em “Vai fazer igual a 2002?

  1. VaL_MV (@valmir_mv)
    agosto 31, 2012

    Isso aí John! Eles pediram “apoio” nós daremos o apoio. agora cabe a eles mostrarem que honram essa camisa e que estão dispostos a lutar por ela.
    Dependerá mais deles do que de nós!

    abs meu camarada!

  2. talita kely
    agosto 31, 2012

    Me emocionei, leio e releio e a dor do rebaixamento volt, mas o amor só aumenta, abandonar meu time, meu palmeiras jamias, eu faço parte dessa família.

  3. Marco
    setembro 1, 2012

    Você tem razão quando não devemos chamar esse time de sem vergonha. Também acho que ninguém está de sacanagem (o chileno correu bastante contra a Lusa), só que tem nego que é ruim mesmo, paciência. É o que temos e estaremos no Pacaembu e demais jogos apoiando sempre. Importante vc espalhar sua mensagem entre a torcida. Abraço!

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Informação

Publicado em agosto 31, 2012 por em Quando a bola não rola.

(Publicidade Gratuita até 20/05/14) #AvantiBasqueteSEP

@ArqPalestrina

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