Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

A caminho da ditadura das maiorias?

Por João Malaia (@ArqPalestrina)

As duas maiores torcidas do Brasil, representam as duas maiores torcidas das duas maiores e mais importantes cidades, São Paulo e Rio de Janeiro. Os urubus, dominam o Rio; os gambás, dominam São Paulo. São as duas maiores torcidas do Brasil. Não é coincidência que são as chamadas “torcidas do povo”.

Nem sempre foi assim. Já contei antes: nas décadas de 1920, 1930 e 1940, as maiores torcidas do Brasil, aquelas que a imprensa (muitas vezes a contragosto) chamava de time do povo, eram as de Vasco, no Rio de Janeiro, e Palestra Itália, em São Paulo. Pudera. Na capital paulista, mais da metade da população era ou italiana, ou filha de italiano, ou neta de italiano. A situação era idêntica no Rio de Janeiro, mudando apenas a colônia, no caso, a portuguesa.

Lá pelos idos dos 1940, o Brasil passava por uma ditadura da pesada. Aliada a essa ditadura, o ingrediente político da moda do momento: o nacionalismo. O barato era valorizar o nacional. Vargas, no Brasil; Perón, na Argentina; Hitler, na Alemanha; Mussolini, na Itália; Franco, na Espanha; Salazar, em Portugal. Estava na moda ser nacionalista. Era a maneira de aplacar a fúria da luta internacional comunista dos trabalhadores contra a burguesia. O discurso era: “o inimigo não é o burguês, é o cara que está do outro lado da fronteira e que quer te fuder”.

Aqui no Brasil, apareceu um sociólogo, Gilberto Freyre, que cedo passou a valorizar um novo tipo de nacional, incorporando e dando relevância a um personagem até então relegado a um segundo plano na formação do brasileiro, do nacional: o negro. E além do negro, a mistura de raças, a miscigenação, que nos daria a capoeira, o samba e, adivinhem, um “estilo brasileiro de jogar futebol”.

Quando sr. Getúlio Vargas terminou sua barganha política com EUA e Alemanha para decidir em que lado entraria na guerra, optou pelos norte-americanos, tão racistas quanto Hitler, ou piores, pois eram racistas mas pagavam de democratas. E teve que declarar inimigos alemães, japoneses e italianos. Internamente, declarava inimigos aqueles que haviam erguido aquela que rapidamente se transformava na maior cidade da América do Sul, a força econômica do país. Os italianos, sempre espezinhados e invejados, devido às conquistas e à rápida escalada social, já eram os “porcos”, os “carcamanos”. Assim como os portugueses eram os “burros” no Rio.

Os ingredientes da declaração de guerra não nos trouxeram apenas a mudança de nome. Gostaria de chamar a atenção para um outro processo que se desenrolou durante todo aquele período e que a guerra só tornou mais agudo.

O processo de se encontrar um novo time do povo, um time genuinamente nacional. Não times representantes de colônias de imigrantes. O nacionalismo exigia que o time do povo não fosse mais o Palestra Italia, ou o Vasco da Gama. E aí começou a ladainha toda das histórias reiteradas vezes repetidas pela grande imprensa, das origens populares dos gambás, que eram um time de várzea, que aceitavam negros (é verdade, aceitavam mesmo) e que eram o time do povo. Amigo, povo em São Paulo era a italianada. Estatisticamente. Não havia tanto negro em São Paulo como havia no Rio, por exemplo. Conta outra.

Vejam esta pequena nota da Revista Moderna, de São Paulo, que em 1914 noticiava a vinda de uma “Squadra Italiana” a São Paulo para jogar com o Mackenzie. Antes da fundação do Palestra Itália. O cronista não se conformava com o comportamento dos torcedores, “uma turba de inconvenientes” que torcia para os italianos, nas gerais. Vejam só o quem é quem nas arquibancadas.:

Vida Moderna, 13 de agosto de 1914

No Rio, que tinha negro e português pra cacete, o Vasco foi o primeiro time a contratar uma pá de negão, mulato e branco pobre, quase todos analfabetos, mas os melhores jogadores do Rio. Pagava os caras e ganharam a série B em 1922, e estrearam de maneira arrasadora no campeonato de 1923, perdendo apenas um jogo e sendo campeões. Os estádios abarrotavam com o Vasco. Era negão com português pra tudo quanto é lado. De repente, o Flamengo é o time do povo?

Vasco da Gama: 1922

Flamengo: 1923

Na onda do nacionalismo, e depois com outra ditadura nacionalista em cima, o processo ganhou força. Os times de imigrantes passaram a ser  “time de imigrante”, e não mais “time do povo”. A imprensa, que não estava nas mãos dos imigrantes, foi dando corda e os novos “times do povo” foram consolidando essa marca.

Hoje, são a maioria. E continuam aumentando sua torcida. Só passa essas duas merdas na televisão, a maioria dos comentaristas e jornalistas torcem para esses lixos e aí a questão ganha um ponto-chave.

Jornalista esportivo é torcedor fanático. Todo o cara que resolveu ser jornalista esportivo é porque é absolutamente apaixonado por um time. Se não, escolheria outro setor para cobrir. É claro que o jornalista político é tendencioso e tem uma posição política que a defende sob o manto da neutralidade. A diferença, é que ele não é fanático. Ele não foi fazer jornalismo porque adorava o Lula e queria seguir o Lula em todos os lugares do mundo.

O jornalista esportivo é fanático, travestido de neutro. Isso é perigoso demais.

Toda esta história e as hipóteses aqui levantadas, que eu acredito com todas as forças, tem muitos desdobramentos. Um deles é foderem nosso time o tempo todo. Vou citar aqui apenas um exemplo para mostrar minha revolta:

1- CAG x Flamengo, Serra Dourada. Um rojão é atirado em direção ao goleiro Marcio, vindo da torcida do Flamengo. Reparem como ninguém fala em responsabilizar ou punir o Flamengo. E mais: reparem que quase ninguém falou sobre isso, quanto mais comentar uma possível punição a essa merda de time.

2- Flamengo x Galo, Engenhão. Um moleque entra com um laser no estádio. Mete a porra na cara dos jogadores do Galo o jogo inteiro. A televisão acha o cara, filma. O cara recebe um telefonema de alguém avisando. Ele some. Pergunto: duas rodadas seguidas, dois flagrantes de atentado à integridade física dos atletas. Alguém ouviu falar em punição? O tal do Lofredo diz que o Goias foi punido na série B por conta disso. E aí? Vai ficar por isso mesmo?

O julgamento do Palmeiras vai ser amanhã pelos ocorridos no Pacaembu. Não que não devamos ser punidos. Devemos, sim. Aliás, agradeço aos filhos da puta que quebraram as cadeiras e arremessaram no campo. Valeu MESMO, bando de bosta. Lutamos igual loucos para trazer os jogos para o Pacaembu e agora, por causa de vocês, vamos para Araraquara ou Ribeirão Preto. Era melhor ter ficado em Barueri. Aliás, NA PARTE EM QUE FICAM AS ORGANIZADAS NÃO TEM CADEIRAS, VIU?

Para concluir o raciocínio, eu pergunto. Se o julgamento é amanhã, como é que todos nós (e o Brasil inteiro) já sabemos que seremos punidos, que levaremos 20 jogos? Por que outros times, que fazem coisas, a meu ver, piores (rojão no campo é pior que cadeira) e reincidentes não tem essas situações tão expostas na mídia?

Até quando vamos aguentar isso? Está chegando a hora de se tomar providências. E isso tem que partir da torcida. Eu não aguento mais, mas confesso minha incapacidade para pensar em algo. Vamos refletir e agir. Antes que virem 51%. Aí é a ditadura das maiorias, fodeu.

Anúncios

8 comentários em “A caminho da ditadura das maiorias?

  1. VaL_:) (@valmir_mv)
    setembro 27, 2012

    Muito bom seu texto meu caro John!
    Vou postar o link no 3VV vale a leitura com certeza!

    Parabéns

  2. Kristian Bengtson
    setembro 28, 2012

    Belo texto. Só uma resalva: chamar os EUA tão rasista ou mais que a Alemanha do Hitler, responsável pelo assassinato sistemático de aproximadamente 7 milhões de judeus (e ainda centenas de milhares de ciganos, deficientes e outras minorias) não é só um equívoco como beira ao absurdo. Abs!

    • arquibancadapalestrina
      setembro 29, 2012

      Kristian,
      Durante décadas os negros nos EUA foram espezinhados e não tinham os mesmos direitos que os brancos. O que cada um faz com seu racismo é outra coisa. Se o Hitler dominou o Estado e pregou o assassinato de milhões e o governo norte-americano não, isso é outra história. Mas digo aqui do conceito de racismo. E um povo que escravizou o outro por 300 anos e depois negou os direitos civis dos mesmos por mais 150, é sim, tão ou mais racista que a Alemanha de Hitler.Se Hitler matou 4 milhões de pessoas, quantas foram arrancadas das suas terras e tratadas como propriedade, pior do que bicho, algo que também foi feito aqui no Brasil? O que dizer dos espancamentos e assassinatos que os brancos norte-americanos, amotinados em bandos como a KKK, enforcando negros em frente às suas casas e às suas famílias em plena década de 1960?
      O que dizer dos líderes do movimento negro assassinados ao longo dessa mesma década? Racismo não se mede só na relação número de mortes x tempo. As raízes de um longo processo são tão, ou mais danosas do que uma tempestade.

      Grande abraço.

      • Kristian Bengtson
        setembro 30, 2012

        Caro João,

        Concordo: racismo não se mede só em números de mortes ou em tempo. E o sofrimento dos negros é inegável, nos EUA ou em qualquer outro país que se utilizou de escravos ou manteve colônias. Aliás, uma prática muito comum no mundo ocidental. Tão comum como o racismo: você pega qualquer enciclopédia européia ou norte-americana dos anos 30 ou 40 e você vai ver as mais clara expressões de racismo quando diferentes povos são comparados. O racismo era, infelizmente, um conceito praticamente universal (universal, aqui no sentido do mundo ocidental) naquela época. E ao comparar atos, a gente precisa sempre ter em mente aquilo que era considerado “normal” na época.

        É justamente observando esse aspecto que o racismo praticado na Alemanha durante Hitler se destaca na história moderna. A intensidade é outra. Ao meu ver, uma polícia explícita de extermínio total de outra raça – e sistematicamente colocado em prática – é a manifestação mais extrema que se pode ter de racismo. Você simplesmente nega a existência do outro. Tem algo mais terrível, mas definitivo, do que isso? Ao meu ver, não. E é principalmente por esse motivo que penso que não há como comparar o racismo nos EUA com o racismo praticado na Alemanha.

        No fundo, acho mesmo que são dois processos, duas coisas incomparáveis. E concordo plenamente com você: as duas formas de racismo causaram danos imensos, cada um do seu jeito. E continuam causando.

        Um abraço,
        Kristian

    • Fábio P. R.
      outubro 17, 2012

      Uai, aumentou um milhão?

  3. Aldo Amadei (@AldoAmadei)
    setembro 28, 2012

    Pura realidade, eu acredito que a unica solução são os demais times romperem com essa nefasta emissora, ai quero ver os jogos que vão transmitir, somente os jogos entre o dois times ? Esta ficando nojento a diferença de tratamento que alguns times tem e outros não. Parabéns pelo texto.

  4. Léo 1914
    setembro 28, 2012

    Cara, sobre os fdps que jogaram cadeira no campo, eu sou a favor de caçar eles!! eles que sejam punidos, não o Palmeiras… deixei até o link para um vídeo.. olha o meu comentário no post “E o caos tomou conta…”
    Divulga essa porra ae.. vamo caçar esses cuzões.. quem prejudica o Palmeiras é inimigo dos palmeirenses!

    • arquibancadapalestrina
      setembro 29, 2012

      Leo, eu concordo com você. Mas vamos combinar que isso é um vespeiro que para nós, frequentadores das mesmas arquibancadas que essa galera, não é uma atitude muito inteligente. Não é fugir da reta, não. Eu só pretendo frequentar os jogos do meu time nas arquibancadas nos próximos anos.

      Grande abraço,

      João

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às setembro 27, 2012 por em Quando a bola não rola e marcado , , , .

(Publicidade Gratuita até 20/05/14) #AvantiBasqueteSEP

@ArqPalestrina

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

%d blogueiros gostam disto: