Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

Qual o objetivo de se aumentar em mais de 600% a joia do clube?

Por João Malaia (@ArqPalestrina)

Quando comecei a escrever posts neste blog, sempre tive como primeira convicção a necessidade de deixar por escrito minhas ideias mais profundas em relação ao Palmeiras e à maneira como encaro o futebol. Mais do que querer ser lido, queria expor o que sentia e deixar registrado, se não fosse para ninguém, para mim. Meu registro de historiador-torcedor.

O tempo foi passando e descobri que tinha uma porrada de Palmeirense que se identificava com muita coisa que escrevia. Passei a aprofundar temas, a utilizar um pouco das técnicas que conheço, principalmente pautadas em interpretações históricas, nas análises das situações que envolvem nosso time. E o resultado foi muito legal. Torcer, A caminho da ditadura das maiorias e Números, argumentos e atitudes foram algumas das ideias que compartilhei aqui e que muita gente gostou.

Hoje, tenho a necessidade de escrever sobre algo espinhoso. Vai ter gente que, se ler, não vai gostar. Vai ter gente que vai gostar. Não importa. O que tenho neste momento é um dever com minha consciência. Com a minha maneira de interpretar a vida, o futebol, o torcedor, o Palmeiras.

Cerca de quatro, ou cinco meses atrás ia me associar ao Palmeiras. A joia era de 700 reais. Tive que fazer uma viagem a trabalho para fora de mais de um mês, voltei, problemas familiares, grana escoando, não consegui. Semana passada, já recuperado financeiramente, fui começar o processo. Minha surpresa? A joia foi aumentada para R$4.500,00. “Mas parcelamos em seis vezes”.

Me digam por favor: qual o objetivo de se aumentar em mais de 600% a joia do clube?

A resposta padrão vai ser: “Ah! Agora com a Arena, novas instalações e tudo mais, a joia tem que ser mais cara mesmo. Nossa joia estava muito barata. A joia do Pinheiros é de num sei quantas dezenas ou centenas de milhares de reais.”

Negócio é o seguinte: clube é uma associação fechada. Para se manter fechada cria barreiras para que outros não possam entrar. É simples: clube da dentadura, é para nego que usa dentadura; clube do cego, é para cego; e assim por diante.

Clube esportivo estabelece a barreira econômica. Só é sócio quem pode pagar. E cada clube estabelece o tipo de sócio que quer, colocando o sarrafo econômico na altura que achar mais adequada.

A joia de 700 reais incomodou, e muito, as alamedas do Palestra Italia. O clube começou a ser frequentado por elementos das camadas mais populares, que no caso dos clubes de futebol são, em sua maioria, representados por integrantes das torcidas organizadas. Com um adendo: quem tivesse o pedido de sócio assinado por conselheiro tinha 50% de desconto. Ou seja, 350 reais. Com mensalidade de 70 reais, estava fácil para conseguir se filiar ao Palmeiras.

E aí o bagulho ficou louco. Com a maior galera lá dentro, a maioria dos sócios tradicionais do Palmeiras, da velha e da nova geração, passou a se sentir incomodado. Imaginem um bando de nego da Mancha Verde andando pelo clube, frequentando todas as áreas sociais. Todos sócios, metendo o dedo na cara daqueles velhos decrépitos, ou “atrapalhando” o bom lazer das famílias de classe média que frequentam o clube.

Pior, passaram a ser um número importante nas eleições para o Conselho, ou seja, passaram a pesar politicamente. E o que fez a diretoria do Palmeiras? Aumentou a joia em 600%, subiu o sarrafo econômico para 4.500 reais. A maioria dos associados se cala. É agraciada com a manutenção da mensalidade em 70 reais e com a possibilidade de uma eleição direta para presidente.

Só para não perder o costume, vou colocar aqui um exemplo da história que serve de paralelo com o Palmeiras atual.

Em 1919, o Fluminense sediou o Sul-Americano de futebol e natação. Arnaldo Guinle, presidente do clube, era também o presidente da Confederação Brasileira de Desportes. Construiu um puta estádio e um belo parque aquático. A joia do clube era de 50$000, menos do que os piores salários nas indústrias cariocas, que giravam entre 70$000 e 100$000. A mensalidade custava 10$000. O estádio inaugurado era considerado o melhor da América do Sul até então.

Estádio em 1919

Nesse mesmo ano, Arnaldo Guinle conseguiu garantir a sede do torneio novamente em 1922 e resolveu refazer seu estádio, aumentá-lo ainda mais. O clube era conhecido por ser aquele que congregava a elite carioca. Sua joia e mensalidade estavam muito baixas. O sarrafo econômico estava muito baixo. Não havia torcida organizada, nem sabemos se o clube foi invadido por elementos das camadas populares, mas as barreiras foram elevadas. A joia subiu 100%, indo para 100$000 e as mensalidades subiram para 15$000.

Estádio em 1922

No ano da inauguração do estádio, em 1922, a joia subiu para 200$000 e as mensalidades para 20$000. Ou seja, em três anos, o Fluminense elevou suas joias em 400% e as mensalidades em 100%. Mesmo ganhando mais de mil novos sócios nesse período, eram sócios diferentes, sócios mais abastados.

A semelhança com a atual situação chega assustar. A joia já foi elevada em mais de 600%. Felizmente, como observadores contemporâneos, podemos saber melhor que meandros estão sendo costurados. E por isso este registro tem também essa validade: a de documentar.

Neste caso, uma situação criada para afastar, impedir mesmo que novos associados oriundos das camadas mais populares, principalmente vinculados às torcidas organizadas, se associem ao clube.

Por isso, passo a defender com unhas e dentes o direito de voto a presidente do sócio-torcedor. Esta é a única maneira de garantir a tal democracia que está sendo alardeada aos quatro ventos por muitos. Democracia com 4.500 reais de início de conversa não é democracia. Votar não é democracia. Um dos pré-requisitos da democracia é garantir o direito ao maior número de participantes possíveis.

Tem mais: sócio-torcedor torce para o Palmeiras. Sócio do Palmeiras tem de tudo: gambá, bambi, sardinha. Até conselheiro gambá e bambi nós temos.

Gostaria de contar com o apoio de todos aqueles que assim pensam. Não acredito em uma redução da joia. Também não espero movimento de sócios para que a joia seja reduzida. Sabe como é clube, uma vez lá dentro… dane-se quem tá de fora. Esse é o comportamento que espero da grande maioria, até por conta das razões acima citadas. Até acredito que algo pode vir de dentro nesse sentido. O problema é que serão minorias, sem força política para decidir nesse nível.

Caso haja algum sentido sincero de democracia nos discursos, não se pode defender a exclusão do sócio-torcedor do processo decisório. Qualquer argumento cai por terra com um aumento na joia de 600%. Com uma joia de 4.500 reais.

Caso você seja daqueles que não suporta as camadas populares infestando seu ambiente higienizado e civilizado, defenda essa ideia também. As torcidas organizadas não querem saber do clube, querem saber do futebol. Se derem poder ao sócio-torcedor terão seus espaços de novo, livres do populacho.

A mim e ao Marcelo, que concorda com as ideias aqui colocadas, nos resta perder uma porrada de seguidores e ver esse post ser malhado, se é que alguém vai se dar ao trabalho de ler, quando começar a ver o que está sendo colocado aqui.

Para aqueles que chegaram até aqui e concordam com as ideias, vamos à luta. Perdoem a confusão de ideias, a emoção à flor da pele. Não suporto esse tipo de coisa. Vai frontalmente contra tudo o que acredito na vida.

Sei que não estou sozinho nessa luta. Ainda bem.

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11 comentários em “Qual o objetivo de se aumentar em mais de 600% a joia do clube?

  1. Léo 1914
    outubro 16, 2012

    João,
    O problema é que o Palmeiras não tem programa de sócio-torcedor. O programa é terceirizado, quem administra é uma empresa, que não tem nada a ver com a diretoria do Palmeiras. A diretoria, aliás, nem tem a lista dos nomes dos associados.
    Vi essa notícia por aí, gostaria até que alguém confirmasse ela.
    Passei pela mesma situação que vc, demorei pra me associar e agora me fodi. Osso…
    Abs.

    • Felipe SEP
      outubro 16, 2012

      Eu também! Ia me inscrever pelo Fanfulla, passei por umas dificuldades financeiras e quando fui ver… 4 pau e quinhentos!

      Quanto ao post, concordo absolutamente! O Inter se não me engano tem 60 mil sócios adimplentes votantes no programa sócio-torcedor. O Inter! Que tem uma torcida pelo menos 3, 4 vezes menor que a nossa.

  2. Guina
    outubro 16, 2012

    Concordo plenamente… mesmo sendo sócio do clube, acredito que a democracia é feita pelo povo, e o povo nosso está n arquibancada… do contrário, os sócios só votariam pro clube social….

  3. Rafael Baldi (@rafaelbaldi)
    outubro 16, 2012

    Concordo com tudo o que foi dito. Não podemos achar que somente pelas eleições diretas o panorama irá mudar.

    Acho que, somente com a separação do clube social do futebol, algo irá melhorar para nós torcedores, que nos importamos com o FUTEBOL e não com as piscinas!

    Abs.

  4. Alan Nascimento
    outubro 16, 2012

    estamos juntos! concordo plenamento com o que foi dito. Vamos trazer o nosso palestra de volta! grande abraço

  5. Vanderson Gomes
    outubro 16, 2012

    Esse é o Palmeiras dos velhos… não se preocupe, isso acaba em alguns anos, a maioria ja deve ter seus 70/80 anos…

  6. Zé Avaré
    outubro 16, 2012

    Joca;
    tive a oportunidade de conversar contigo sobre o assunto, e você já sabe minha opinião a respeito do tema. Pondero, de qualquer jeito, a respeito de seu post.
    Numa visão um pouco menos radical. pode ser que o aumento do valor da jóia seja exatamente a porta de entrada para a participação do torcedor não sócio nos negócios do clube. Até hoje ninguém falou (que eu saiba) sobre eleição de conselheiros pelo sócio-torcedor. Caso o clube consiga avançar para a eliminação dos conselheiros vitalícios (não estamos falando de eliminação das pessoas, mas do cargo, ok? Sem cadeiradas, por favor), pode ser que surja um interessante sistema de equilíbrio: o CD eleito pelos sócios, essas pessoas que aparentemente querem gentrificar o Palmeiras, e o Presidente eleito por um universo maior, que inclui o sócio-torcedor.
    De fato, também já te falei isso, o torcedor que não é sócio se interessa exclusivamente por um aspecto do Palmeiras, que é o futebol. Os negócios do clube, contudo, tem que ser tocados como um todo – se não houver Palmeiras, não vai haver time de futebol do Palmeiras.
    Quanto a cravar que o aumento da joia tenha sido pra afastar as torcidas organizadas, não tenho certeza sobre isso. Há vários aspectos a ponderar, e essa simplificação não me parece muito condizente com a realidade do clube (que precisa de grana). De qualquer jeito, também já te falei isso, não gosto da ideia de torcida organizada gerindo o Palmeiras – a gestão tem que ser profissional, e o torcedor organizado representa exatamente o oposto desta linha de conduta.
    Acho que é isso. Não espero que vc concorde comigo, mas acho que dá pra abrir diálogo.
    Abraço, e vamo em frente

    • arquibancadapalestrina
      outubro 18, 2012

      Zé, meu broder!
      A radicalidade é uma das marcas do meu pensamento. Por isso fiz História e me assumo como socialista. Todas as minhas análises, acadêmicas ou não, são pautadas por uma linha de interpretação marxista da sociedade. Algo que é descrito como radicalismo.

      Aumento de joia em 600% não pode ser porta de entrada para ninguém. Para mim, por exemplo, não é. Você sabe que eu ia me associar ao Palmeiras, mas agora não vou mais. Aumento de receita se faz também com aumento de mensalidade. Mensalidade de 70 pila não sustenta clube nenhum. Quem sustenta é o futebol.

      Quanto às mudanças políticas, eu só venho uma solução: voto direto para o sócio-torcedor para presidente. Com isso, pode até manter conselheiro vitalício.

      E eu vejo a situação de forma diferente: sem um puta time de futebol, não tem Palmeiras. O Palmeiras não é o que é pela área social do clube. É o que é por causa do futebol e APESAR da área social do clube.

      Se o clube precisa de grana, aumenta a mensalidade. Cria planos de marketing decentes e profissionais, como você bem colocou, para atrair novos sócios, e não afastá-los. Qualquer iniciante em estudos de marketing esportivo sabe que esse tipo de medida afasta consumidores.

      Dá direito de voto ao sócio-torcedor e bomba aquela merda de uma vez com 80 mil nego pagando 70 pila por mês e abarrotando o estádio.

      Em relação às TOs, isso é o que penso. Não tem jeito. E, sou sincero, entre os senhores feudais e as torcidas organizadas, sou mais elas.

      Porém, uma coisa concordamos: é urgente uma gestão profissional.

      E o diálogo, Avaré, principalmente com opiniões adversas, é o que move o mundo. Eu, você e muitos outros só temos um interesse: o Palmeiras. Cada um com sua ideia, com sua maneira de pensar, mas com um objetivo. É isso o que nos move e isso é o que nos une, independentemente das opiniões contrárias e adversas.

      Grande abraço, irmão. Seguimos na luta.

      Joca

  7. Gabriel Ferraroni
    outubro 16, 2012

    Parabéns pelo excelente post, não conhecia o blog (cheguei aqui através de um comentário no Verdazzo) mas já esta no favoritos…
    Algo muito parecido aconteceu comigo, tive problemas financeiros e quando me estabilizei para finalmente virar sócio, 600% de aumento. A mídia palestrina divulgou e caracterizou como absurda tal medida mas obviamente os grandes portais, as emissoras de tvs e seus “jornalistas” deixaram passar batida, claro por interesse direto de suas “fontes” de mais de 80 anos…
    Mesmo assim, mas uma vez devido a campanha feita na Mídia palestrina muitos torcedores de arquibancada viraram sócios e o resultado começa a aparecer, os “donos” da S. E. P estão sendo tirados de sua zona de conforto e estamos prestes a dar o primeiro porém mais difícil e importante passo, as diretas!
    Contra a vontade de vários tiranos e obsoletos estamos caminhando rumo a modernização, a democracia e ao nosso devido lugar o TOPO do futebol Mundial!
    Saudações Palestrinas!

  8. Luiz Sergio
    outubro 16, 2012

    Concordo plenamente com a sua argumentação. Fui sócio do Avanti! na esperança de que tivesse possibilidade de votar para presidente do Clube. Aliás, vou mais longe, penso que deveríamos separar o futebol do clube social, elegendo um novo conselho só para o futebol com eleições diretas só para o futebol com o voto dos sócios-torcedores do palmeiras. Penso que o que leva o palmeiras para a sua segunda queda a Série B não é o déficit orçamentário, nem as dívidas, se fosse assim o fluminense e o flamengo estariam na Série E atualmente. O que causa a nossa queda são os sócios do clube social que comemoram gols do corinthinas dentro da sede social da S.E.Palmeiras, os conselheiros que cantam o hino do corinthians e os sócios corintianos, bambis e sardinhas que moram na pompéia e perdizes e gostam de frequentar as piscinas do palmeiras. Por isso, deixo a sugestão: separem o futebol do clube social e deixem o clube social para o Gilto Avallone, Musgambá contursi, Piraci, Del Nero, Faccina, tirone, della monica, palaia e todos os outros que amam a bocha, o bar inglês, o tênis, a patinação, etc…
    Obs.: Meu desespero é tanto que vou me associar mesmo me endividando em 6 vezes no cartão.

  9. Marcelo
    outubro 17, 2012

    João, parabéns pelo trabalho.
    Li este post sobre o valor da associação ao clube e tenho sentimentos e opiniões contraditórios sobre o assunto e explico.

    Primeiro, eu também me frustrei com o aumento do valor. Eu estava pensando em me associar ao clube para poder votar, influenciar, fazer alguma coisa para ajudar o time contra aquele monte de velhos (não há demérito em ser velho, eu espero chegar lá, mas que fossem antenados, não alienados e com vontade de acompanhar a evolução do mundo!), votar pela modernidade. Quando tentei, isso há vários meses, a adesão estava suspensa e eu fiquei desconfiado do que viria… e de fato veio. Ainda penso em me associar, mas tô precisando tomar coragem pelo valor. Compartilhei da sua frustração!

    Segundo, e por outro lado, eu também acho que o valor cobrado deve ser condizente com o clube e, principalmente, ser um valor que faça sentido e que inclusive ajude o clube social a se manter e não ser um ralo de dinheiro do time. Pensei que a melhor opção seria ver o que outros clubes cobram, para estabelecer uma comparação justa. Escolhi comparar com o SPFC, pq acredito que seja um clube comparável em estrutura física e localização (a do Palmeiras é bem melhor! Já a localização dos gambás… incomparável). Pelo site do SPFC, os valores são os seguintes:
    – Título Social: R$ 10.000,00
    – Manutenção mensal: R$ 228 (casal), R$ 58 (cada dependente), R$ 144 (individual)
    Assim, não parece que o valor pedido pelo Palmeiras, agora, esteja tão fora. Convenhamos, aqueles R$700 poderiam até ser motivo de chacota dos bambis…

    Por último, concordo 100% com o voto direto pelo sócio-torcedor. Isso, por si só, afastaria qualquer discussão sobre o valor da associação ao clube ter motivos políticos, tornando esse assunto mais racional e afastado de qualquer paixão que o direito de voto traz…

    Abs
    Marcelo

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Publicado às outubro 16, 2012 por em Quando a bola não rola e marcado , , .

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