Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

O Bandidão Verde que conquistou a molecada nos anos 1980

Por João Malaia (@ArqPalestrina)

Muitas vezes me perguntam porque eu, um cara de quase 40 anos, pai, professor universitário, que estuda todo dia esporte, pode gostar tanto da Mancha Verde.

Antes de tudo, cabe um esclarecimento. Não estou aqui fazendo apologia à violência.Eu sou sócio da Mancha desde 1994. Me associei e pagava mensalidade, não pagava, tudo dependendo da situação financeira. Desde 2008,tenho  pagado quase todos os meses. A minha está em dia, a dele não. Acerto agora com o 13º. Não costumo fazer viagens com a Mancha, nem frequento as festas, ou assembleias. Meu compromisso com a Mancha, desde 1994, é nas arquibancadas. Desde 1994, estou presente ali, no meio da galera, sem parar de cantar. E participo dos atos mais importantes, convocados pela direção da torcida ao longo dos anos.

Voltemos então à dúvida. Por que admiro tanto a Mancha? Por que colaboro financeiramente com ela? Por que associei meu filho à Mancha? Por que me orgulho de ser Mancha Verde?

Pois bem, todos os caras, Palmeirenses fanáticos, que nasceram entre os anos de 1970 e 1980 (um pouco antes e um pouco depois, também), podem não concordar com minha postura, mas, com certeza vão entender.

Quem nasceu nesse período pode se considerar da geração dos torcedores vivos mais sofredores do Brasil atualmente. “Viram” o caneco de 1976 e depois amargamos uma infância e adolescência sendo achincalhados por todo mundo. Não foi só uma fila que amargamos, como os gambás. Amargamos a fila com derrotas vexatórias para Guarani, Bragantino, Novorizontino; eliminações terríveis com empate com a Ferroviária de Araraquara; vimos os rivais conquistarem os títulos mais importantes das respectivas histórias (gambás o Brasileiro de 1990 e os bambis com suas Libertadores e mundiais); resumindo, foi osso.

Em meio a essas amarguras, a torcida do Palmeiras era avacalhada por todo mundo. A molecada começou a ficar sem ter porque colocar o manto. Era derrota após derrota, humilhação após humilhação. E a isso, somava-se a festa feita nas arquibancadas pelas torcidas organizadas rivais. E mais, a porradaria que começava a cantar alto nos estádios e arredores. O Palmeiras tinha a TUP, uma tradicional torcida fundada em 1970, que, ao ver do grande público, como eu, agonizava junto com o time. Sempre em menor número que as rivais nas arquibancadas, quase nunca se falava dela.

Eu morava em São José dos Campos- SP. O número de amigos Palmeirenses era diminuto. A situação começou a ficar chata. Principalmente para um moleque de 9 anos, como eu. De repente, um fato novo: 1983, surge uma nova torcida organizada do Palmeiras. Eu, 9 aninhos (vejam só, exatamente a idade do meu filho hoje), uma criança achincalhada pelos amiguinhos, sem caneco para comemorar, ganhei um novo aliado. Um boneco da Disney, bandido, verde. Estava montado o imaginário infantil de identificação. Mais: lotando as arquibancadas, peitando as outras organizadas, motivo de orgulho, ufa!

Meu bandidão preferido da Disney, agora de verde, aparecia à frente da arquibancada. Vejam estas pérolas do youtube, de 1984. É um vídeo da TV Gazeta de um concurso de torcidas organizadas, no programa Show de Bola, com Luis Roberto e Avallone. A Mancha estava lá. Meteu 11 a 5 na Dragões da Real, enquanto a TUP já tinha perdido seu confronto. Não sei dos resultados desse confronto, mas prometo pesquisar. Se alguém souber, agradeço e cito os colaboradores, como um historiador que se preze.

Os vídeos são lindos! Uma raridade maravilhosa. Tem Cleo e a Mancha aproveitando a oportunidade para levar uma faixa de luto pela péssima administração do Palmeiras. Tem até um maluco de Mancha Verde! Imaginem eu, pivete de 10 anos vendo aquele Mancha! Ninguém tinha aquilo!

As torcidas não podiam cantar músicas com porrada, então os gritos eram adaptados, vocês vão perceber. E tem o Cleo falando o objetivo da Mancha: “A Mancha foi criada com o intuito de só uma coisa, restabelecer o respeito à torcida do Palmeiras”. Aí vão eles. Obrigado a quem os colocou no youtube. Os videos estão picotados, mas dá para sentir como uma criança de dez anos ficava ao ver aquilo:

O orgulho estava restabelecido. Em São José mesmo, arrumei uma camisa da Mancha e andava por lá com ela. Agora, tirar barato de Palmeirense era mais embaçado. Mas em 1988, uma tragédia. Folha de São Paulo, 19 de outubro de 1988:

O recado estava dado para mim, na época com 13 anos. Fique esperto que a chapa esquentou. No entanto, a Mancha não recuou. Pelo contrário, só cresceu. E continuava povoando o imaginário da molecada. O noticiário sobre violência na torcida colocava os membros das torcidas com frases de orgulho. No caso da Mancha, os caras falavam “agora quem domina é nóis” dava a certeza aos torcedores como eu, que nossa torcida era a melhor, a mais temida.

E nosso time? Tomando cacete, para variar. Um ano antes de me mudar para São Paulo, o Palmeiras começou a ganhar tudo. Tinha eu 19 anos e começava a Era Parmalat. Mudei para São Paulo em 1994, me filiei oficialmente à Mancha e comecei a frequentar a arquibancada junto da galera.

Da minha infância e adolescência tinha aprendido algumas coisas. A primeira, era que a Mancha havia sido uma das grandes responsáveis por eu poder ter momentos de glória como Palmeirense frente à molecada nos anos 1980. Era a mais temida, a que dominava, a que fazia com que eu saísse na rua e não ouvisse tantos insultos e chacotas de estranhos. Depois, que, se pretendia colaborar com a Mancha, tinha que estar presente na arquibancada sempre, e sempre no meio dela, e sempre cantando sem parar. Isso me trouxe outro ensinamento: eu podia influenciar no comportamento dos jogadores. A Mancha me ensinou a torcer.

Mas também me ensinou que, se queria ter uma vida um pouco mais longa, devia me precaver. É estranho, pois um dos motivos que me orgulhava de ser Mancha Verde quando moleque era o mesmo que me afastava de um envolvimento total com a torcida. Acredito que foram os anos que passaram e o que fui vendo e vivendo nesses quase vinte anos. A pior de todas, uma emboscada a caminho de Ribeirão, quando eu e dois amigos, de carro, ficamos no meio do comboio da Gaviões. Tomamos pedrada, rojão, latinha, levamos com bambu de bandeirão e tudo mais. Ver a Mancha em Ribeirão Preto foi um alívio. E depois do jogo, estava na grade, exatamente na grade que a Gaviões quebrou e que o pau cantou. Foi muito trash.

Tudo isso, tudo combinado, misturado, o imaginário de um bandido da Disney, as vitórias na TV Gazeta, a importância dada à Mancha pela mídia em tempos de vacas magras de futebol, a diminuição dos insultos, os ensinamentos da arquibancada, a violência envolvida no processo, tudo isso colaborou para que eu fosse quem sou, ser Palmeirense como sou, estudar o que eu estudo, trabalhar com o que eu trabalho. Haverá um dia, que não está longe (que os deuses do futebol me ajudem), em que pesquisarei exclusivamente violência no futebol.

Para que eu entenda melhor esse processo. Para que ajude, talvez, a sociedade a entender melhor esse processo. Para que eu me entenda melhor nesse processo.

Sempre digo: “Até na Igreja Católica tem padre pedófilo e vão querer que na Mancha só tenha santo?”. E mais, a festa na arquibancada, quem faz somos nós! Tem muita coisa errada, mas tem muita coisa boa. E eu não preciso pagar R$4.500 para ser sócio da Mancha. Entre erros e acertos, não posso negar minha história. E minha história, meu imaginário infantil e adolescente está intimamente ligado à Mancha Verde.

Saí aqui no Rio ontem com camisa do Palmeiras e boné da Mancha. Como moro perto do Corcovado, passo no meio de um monte de guardador de carro, vendedor ambulante, motorista de van, bêbado, mendigo e tudo mais que um ponto turístico carioca tem. Claro que todos sabem que sou Palmeirense e sempre que podem tiram um barato. Dessa vez ninguém tirou. É que o Palmeiras caiu para a série B. Mas a Mancha continua na série A.

Deu para entender?

PS: Nada mais apropriado para escrever hoje do que o tema acima. Justamente em mais um dia vexatório de nossa história: caídos para a série B e perdendo em casa para o outro time já rebaixado.

PS2: Situação tá foda no Brasil, no quesito violência. Segundo levantamento do Lance!, já são 155 mortes ligadas a torcidas organizadas no país.

PS 3: E para quem quiser ver um pouco mais de perto a realidade das torcidas no Brasil, vale a pena o documentário The Real Football Factories International: Brazil. Aliás, todo o documentário vale a pena e passa à meia noite de terça para quarta-feira na ESPN.

 

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7 comentários em “O Bandidão Verde que conquistou a molecada nos anos 1980

  1. VaL_MV
    novembro 26, 2012

    Somos da mesma pegada John, apaixonados pela MV, guerreiros, da paz ou do que vier, mas DIGNOS e HONESTOS de sentimentos.
    Nunca FALSOS, nunca COVARDES e TRAIÇOEIROS.
    Isso são coisas que o Cléo ensinou, ser DIGNO e HOMEM.
    Que ele esteja olhando por nós, faz falta lideranças como a dele, do Serdan.

    Que saudades dessa época!

    SOU PALMEIRAS MANCHA VERDE!

    Não precisa dizer mais nada.

    Nossa Torcida nunca cai, nunca é rebaixada, sempre é Campeã, temos os ideais do PALMEIRAS GIGANTE em nossos corações.

    Somos únicos!

  2. Lucas Eduardo
    novembro 27, 2012

    Não tenho tanto tempo de Mancha, nem se quer o sabor de ir ao estádio todo final de semana.
    Nasci seis anos depois de a Mancha Verde ser fundada e nasci no interior do MT, à 350 Km da capital, porém em 1996 naquele Paulistão que se o Barça jogasse com o time que tem hoje levaria uns 4 x 0 da gente fácil, me tornei Palmeiras, mesmo com um pai BIXA.
    Vim pra capital Cuiabá para fazer faculdade e vi que não sou o único que é doente pelo palmeiras e aqui me tornei sócio da Mancha, pois existe aqui uma sub-sede oficial, a Mancha Verde Cuiabá.
    Depois que me tornei sócio, fui de férias para minha cidade no interior e lá vi um tio, um irmão da minha mãe que só vi quando criança, pois ele mora em São Paulo.
    Eu com a farda posta, ele veio conversar comigo:

    – Lucão sabia que você ia dar bom.

    – Ué, porque tio?

    – Faço parte da Mancha desde 1987. E vou te falar uma coisa: respeita essa camisa viu véio.

    Nada vai mudar o nosso amor, nada vai mudar nossa paixão, por isso sou feliz, por isso sou feliz, por isso eu canto forte, MANCHA.

    Dignidade União e Glórias.

  3. Gabriela Castro
    fevereiro 6, 2013

    ai Lucas vc disse tudo…
    Eu tenho 16 anos, quando eu era criança meus avós me ensentivava se vascaina, mas aos 10 anos comeceii a assitir os jogos do estado de sao paulo, ai foi ai qe eu conheci o GIGANTE PALMEIRAS, despois daí comecei ver os jogos do palmeiras mais não sabia mt sobre o clube…. eu smp gostei da cor verde rs !!!
    em 2008 o meu coração virou verde e branco até hj e até morrer néh!
    tem uns 2 anos qe conheci a mancha e me apaxoneeei d+ da coooonta …
    Apesar de nunk ter indo a um estadio e taal, aqui no meu ESTADO E.S Tem os manchista qe conheci por internet…. e Agora vou nas ações sociais qe aq tem… acabei de realizar um sonho, de ter uma camisa da MANCHA Original… a camisa me quebrou no mÊs mais foi um dos sonhos realizado neh…
    hj em diia defendo cm unhas e dentes o PALMEIRAS E A MANCHA … Ja até briguei na escola por causa disso rsrsrs..

    Um abraço aiii

  4. boidoabc
    fevereiro 11, 2014

    parabens,daria uma materia em qualquer jornal do brasil,ou programa de tv!!bom saber que o sentimento mv nao se acaba ,nao faço parte dos dias de hoje,mas antigamente eramos uma famiia!!tive o prazer de ter participado da epoca de ouro da mancha de 86 ate 1994!!varias coisas aconteceram,muito se passou,mas o amor pela entidade mancha verde jamais acabara!!

  5. Danilo Ta. Miranda
    fevereiro 16, 2015

    É ridículo chamar a torcida de Mancha Verde e usar um personagem da Disney pintado de verde.
    O personagem é o Mancha Negra.
    Tem muito mais a ver com o time inimigo. É preto, vive nas sombras, é assaltante.
    Deveriam arrumar outro nome e outro personagem.

  6. Luiz Henrique
    novembro 25, 2015

    Cara sou Santista, li seu post e fiquei muito feliz em saber que pessoas pensam como eu, admiro muito o trabalho da Mancha, e a violência não está nas T.O. e sim na sociedade em si.
    Abraço

  7. Rodney Oliveira
    dezembro 6, 2015

    Parabéns pelo texto, fez conhecer um outro lado da torcida organizada.. parabéns.

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Publicado às novembro 26, 2012 por em Quando a bola não rola e marcado , , , .

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@ArqPalestrina

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