Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

Arquibancada: extensão da vida

revolta

Por João Malaia (@ArqPalestrina / @jmalaia)

Você está puto com a queda para série B? Está puto com a falta de contratação de jogadores? Tá puto que tem jogador descomprometido no elenco? Tá puto porque a GambáPress está fazendo de tudo para nos fuder, inclusive já está fritando nosso técnico? Tá puto porque o chefe da nossa comunicação agora vai ser um gambá fanático? Tá puto porque o Palmeiras perdeu de 3 da Penapolense (puta que pariu…) mesmo estando com um jogador a mais?

Ok, você tá puto. Eu também. Estou muito puto por todos esses motivos acima mencionados e mais uma caralhada de problemas pessoais para lidar com essa cabecinha fraca que tenho.

Mas tem uma coisa que não me deixa puto. Em hipótese alguma. Aliás é a antítese da putice: ir a um jogo do Palmeiras, em qualquer lugar, sob quaisquer circunstâncias. Posso até ficar mais puto lá na cancha. Mas é uma putice diferente. É uma putice cheia de plenitude. Ali, ao lado da torcida do Palmeiras, me sinto em casa. Em casa mesmo. É, sem dúvida, um dos lugares que mais me sinto bem na vida. Arriscaria a dizer que é o lugar que me sinto melhor.

Entro na arquibancada, meu lugar de origem e aonde pretendo morrer com um infarto fulminante após um caneco do Palmeiras, não sei o nome das pessoas, mas sei exatamente quem elas são. Conheço alguns rostos ali há mais de 20 anos. Tem gente ali que eu abraço desde os 14 anos, quando ainda estávamos no ano de 1988.

Mas o que me faz sentir tão bem dentro de um estádio? Várias coisas. E todas elas estarão presentes hoje, no Pacaembu, às 19h30.

Primeiro, tem Palmeiras em campo e isso já seria suficiente. Mas tem uma coisa muito maior com o futebol que mexe comigo. Nós vivemos num país de merda, cujos governantes destroçaram quase todas as manifestações coletivas ao longo de regimes ditatoriais ou extremamente autoritários. A maioria dos nossos presidentes teve pouca ou nenhuma tolerância com movimentos sociais, com manifestações coletivas que lutavam por seus direitos constitucionalmente assegurados.

Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, arregaçou todo mundo na Revolução Federalista, arrasando RS e SC. Prudente de Morais destruiu Canudos. Rodrigues Alves arregaçou os cariocas na Revolta da Vacina. Hermes da Fonseca foi o responsável pelos crimes cometidos contra os marinheiros da Revolta da Chibata. Artur Bernardes governou quase 3 anos e meio debaixo de um decreto de estado de sítio. Depois veio Vargas e a repressão foi total a todos os segmentos que não concordavam com sua política. JK fez vista grossa às greves gerais de Contagem em MG e a polícia desceu o sarrafo em todo mundo. Em seguida a ditadura militar: cacete em todos os opositores, e até mesmo aqueles que não eram opositores. Vieram Collor, FHC, Lula, Dilma. O estrago já estava feito.

O futebol brasileiro cresceu nesse clima. Mas tem um lugar que não se consegue controlar. Os governos até tentaram, mas não conseguiram. No início da década de 1920, normas foram lançadas nos estádios pedindo para que as pessoas se sentassem na arquibancada e não ofendessem jogadores e árbitros com palavrões. Getúlio tentou criar concursos para as torcidas mais disciplinadas, o que foi o embrião das primeiras torcidas organizadas. Na ditadura, tentavam controlar as nascentes torcidas, mas sem sucesso. Elas apareciam com força e eram um verdadeiro canal para expressar descontentamentos variados.

No estádio, o cidadão brasileiro tem uma das poucas oportunidades de se manifestar livremente. Pode ofender as autoridades constituídas sem dó. Pode ofender jogadores que não rendem o esperado. Pode se revoltar por conta do time não estar jogando. E pode perceber que suas ações influenciam diretamente no campo de jogo, com seus gritos de apoio ou com suas vaias de protesto.

Quem aqui nunca ouviu algo desse tipo: “Meu voto não muda nada”, “Aquele cara rouba, mas todo mundo rouba…”, “Não adianta eu me preocupar, pois minhas ações não vão mudar o mundo” e outras pérolas? Isso é comum. É um senso comum de um povo que vem sendo esmagado em suas manifestações coletivas ao longo de sua história.

Mas é difícil ouvir “não vou cantar no jogo, isso não muda nada”, “Pra que xingar o juiz. Todo juiz rouba mesmo”, “Não quero nem saber, nada do que eu fizer no estádio vai mudar esse resultado”. Vejam como agimos diferentes no estádio e na vida. Mas porque? O estádio é uma extensão da vida. Ou a vida é uma extensão do estádio.

Eu acredito que um dia conseguiremos unir as duas condutas. E acredito que um dos canais para que isso aconteça é continuar tendo uma conduta combativa dentro do estádio. Combativa no sentido de combater, de apoiar, de fazer a vida valer lá dentro, de se fazer presente, de se fazer sentido.

Por isso fico tão triste em ver a torcida do Palmeiras dividida. Um monte de gente se ofendendo. Gente ofendendo a Mancha Verde, gente da Mancha Verde ofendendo os outros torcedores. Fico triste, mas não desanimo. É um racha, faz parte da luta, faz parte da vida.

Cabe a nós, pelo menos os que enxergam a vida mais ou menos por esse prisma, continuarmos lutando. Continuarmos apoiando, continuarmos vivendo na arquibancada e estendendo isso para nossas vidas. Para que nos indignemos tanto com os políticos corruptos, quanto com a arbitragem que nos rouba um gol. Para que cobremos de nossos governantes da mesma forma que cobramos jogadores descomprometidos. Para que saibamos que, mais do que a GambáPress, existe uma uma imprensa burguesa que só mostra o que quer e do jeito que quer. E a GambáPress é um dos maiores sintomas disso.

Hoje, Palmeirense, mesmo que sejam os 4 ou 5 mil de sempre, é hora de ser gente, de fazer a vida valer a pena e lutar. E fazer da vida uma extensão da arquibancada. Amo vocês, Palmeirenses. Vejo alguns de vocês lá no Pacaembu hoje. Na luta. Sempre.

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Publicado às janeiro 31, 2013 por em Tensão Pré-jogo e marcado , , , , .

(Publicidade Gratuita até 20/05/14) #AvantiBasqueteSEP

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