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1996: o ano em que perdi o respeito pela Vila Belmiro

1996 Santos Palmeiras

Dia 24 de março de 1996. Um dia para ficar gravado na minha memória. Um dia para ser lembrado toda vez que vejo que o Palmeiras tem que ir a Santos enfrentar o time número 1 da Baixada Santista.

Naquele ano, o Palmeiras montou uma das maiores máquinas de jogar futebol de que se tem história. Um time irretocável: Velloso, Cafu, Sandro, Cleber e Junior; Amaral (Galeano, nesse jogo em Santos), Flavio Conceição, Djalminha e Rivaldo; Muller e Luisão. Esse time estava com 13 partidas na competição: 12 vitórias e um empate. Faria a última partida do primeiro turno na Vila Belmiro, para garantir a vaga na final do Paulista, ou a possibilidade de ser campeão antecipado, caso vencesse os dois turnos.

No meu caso, aquela partida era ainda mais especial. Explico: morava sozinho aqui no Brasil e tinha 22 anos. Meus pais estavam em Portugal e eu me virava por aqui com a ajuda de amigos. A grana era muito curta, havia terminado com uma namorada e estava tendo a péssima experiência de ter me apaixonado por uma gambá na sequência. Coisa horrorosa. Mal tinha dinheiro para comer e quem segurava muito da minha onda era meu grande amigo, irmão, Marcelo Maroni, o Magrão. O cara dividia marmita comigo para eu não passar fome. E teve a infeliz ideia de me prometer, de aniversário de 22 amos completados dia 15 de março, que me levaria à Vila para ver o Santos x Palmeiras. Ele tinha carro e um pouco mais de dinheiro que eu. E queria me ver feliz de qualquer jeito.

Na noite anterior, uma balada nos destroçou. Foi daquelas bebedeiras até 6 horas da manhã, de arrasar com o caboclo. Daquelas que paguei a conta com uma bela úlcera que até hoje me atormenta. Detalhe é que o Maroni bebe bem mais que eu. E o bichinho ficou cozido. 11 da manhã eu acordo o rapaz, que debilitado, fraco, conseguiu apenas colocar uma calça jeans e me dar a chave do carro.

Descemos para a Baixada. Maroni, coitado, flamenguista que não liga muito para futebol, não conseguia descrever o arrependimento de ter me feito a promessa. Bichinho tava branco de cozido. Chegamos a Santos por volta das 13h30, compramos ingressos e fomos dar um rolê na praia. Um sol para cada um, os dois de calça, radiador fervendo… tempo para mais uma cerveja.

Às 16 horas já estávamos dentro da Vila, que mais parecia a casa de praia do Palmeiras. Mais de 14 mil pagantes, a grande maioria de verde e branco. Aos 5 minutos, Rivaldo fez um a zero. Aos 17, Cleber fez de cabeça. Aos 24, repetiu a dose. Acabou o primeiro tempo. Maroni não queria acreditar. Seu arrependimento tinha virado uma benção: “Caralho, ainda bem que te fiz a promessa! Que jogo é esse? Parece Sega!” (Quem aí lembra do Sega?).

Falei para ele: “do jeito que tá, é três vira, seis acaba”. Dito e feito: Cafu, aos 14. Depois Djalminha aos 38 e Rivaldo, aos 42, fecharam o caixão dos lambaris. A torcida do Santos não acreditava. Jogou pilha e até porta-retrato puta que pariu, quem leva um porta-retrato pro estádio, cacete?!?!?) nos jogadores.

Torcidinha deles "descontrolada"

Torcidinha deles “descontrolada”

Amigos, não adiantava. Ali estava um dos maiores times de futebol que já pisou em gramados desse planeta. A Placar chegou a fazer uma puta reportagem acompanhando oito dias desse Palmeiras, campeão paulista com mais de cem gols.

Metemos seis a zero e o Maroni nunca mais disse que tinha se arrependido de me ter feito a promessa. Ali, juntos, escrevemos mais um capítulo da nossa amizade. Dos poucos que teve como tema o futebol. E ficará para sempre em nossas memórias como um dos maiores jogos de futebol que já assistimos. Ficou na memória o prazer de sermos testemunhas de uma vitória histórica. E como uma das maiores provas de nossa amizade. Um amigo que queria que o outro tivesse o prazer de alguns momentos de felicidade em um contexto bastante complicado. A qualquer custo.

Valeu, Magrão. Você é foda.

E para vocês, santistas. Foi mal. Perdi o respeito faz quase 20 anos para vocês. Domingo, estarei de volta à minha casa de praia. Abasteçam a geladeira e deixem o banheiro limpinho para eu e minha família usarmos. Pode pôr o Neymar para limpar as privadas.

Apenas para lembrar, algumas piadinhas da reportagem da Placar, de junho de 1996. Era a semana dos clássicos e o Santos já tinha levado a meia dúzia. Muita coisa mudou de lá para cá. Mas uma, pelo menos, se manteve. A piadinha para os gambás. Reparem como a coisa é antiga.

Piadas da Revista Placar, junho de 1996

 

1996 piadas ok

Domingo seremos 700 malucos a enfrentar uma Vila cheia e confiante, com o mais badalado jogador brasileiro do momento. E vamos de peito aberto, com tudo para cima deles. Aqui é Palmeiras. Eles sabem disso. Faz tempo. Muito antes de 1996.

João (@ArqPalestrina)

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Publicado em abril 22, 2013 por em Uncategorized.

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