Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

Deprimente

Por João Malaia

Deprimente. É assim que posso resumir o que vivi no ginásio da Arena, hoje à noite. Não pelo jogo, aliás uma vitória de 4 a 1. Isso para mim, hoje, pouco importou. O que vale a pena relatar é o espetáculo deprimente proporcionado por um dos árbitros da partida.

Sempre dizem que não devemos escrever de cabeça quente, para não corrermos o risco de passarmos vergonha apagando o que escrevemos. Hoje, não quero nem saber.

Estávamos na Arena, torcendo pelo Palmeiras. Infelizmente, muitas pessoas não sabem o significado cultural e antropológico do ato de torcer, principalmente no Brasil. Só se torce no Brasil. Nos outros países apoiam, suportam ou sei lá que mais. Torcida é brasileira.

Há um livro interessante, no qual escrevi um capítulo, de nome “Torcida Brasileira”. Nesse livro, tenta-se explicar mais um pouco desse fenômeno. Ali explicamos que torcer é algo genuíno do brasileiro. Um artefato cultural desse povo. E torcer é apoiar, incentivar, mas também é trabalhar pela vitória do adversário, ou mesmo pugnar pela vitória de uma time. Já escrevi sobre isso aqui no blog também. E faço questão de citar de novo:

“Em 1939, Laudelino Freire publicou seu Grande e Novíssimo Diccionário da Língua Portuguesa e torcer passou a ser “trabalhar para favorecer alguém em prejuízo de outro, desejar os proveitos de alguém, em detrimento de outrem” e “desejar a vitória de um grupo desportivo, gritando ou gesticulando”. Trabalhar para favorecer alguém… trabalhar, Palmeirenses!

Em 1949, Orlando Mendes de Moraes escreveu uma edição compacta de um dicionário para ser usado nas escolas ginasiais do país, o Dicionário Ginasiano Brasileiro de Língua Portuguesa. O que os alunos das escolas ginasiais brasileiras aprendiam é que “torcer” ganhava um significado ainda mais especial: “pugnar pela vitória de seu clube desportivo”.

Pois é, algo genuinamente brasileiro, trabalhar e pugnar pela vitória do seu clube, não pode mais. Os resquícios da ditadura estão aí para nos provar.

Qual o comportamento esperado por uma torcida dentro de um estádio ou ginásio? Que trabalhe, que pugne, que lute pela vitória dos seus. E como pode o torcedor conseguir trabalhar ou pugnar pela vitória de seu clube? De duas maneiras: empurrando seus jogadores e desestabilizando psicologicamente o adversário.

E como desestabilizar psicologicamente o adversário? Com porrada? Não, não pode. Com cusparada? Não, também não pode. Com xingamentos e ofensas das mais variadas? Sim, isso pode. Desde que obedecendo a sinalização de segurança, sempre atrás das faixas delimitadoras.

Pois bem. É assim que eu ajo, é assim que a maioria das pessoas age.

Aí o que acontece? O babaca que é treinador do Mogiano foi falar para o juiz que nós estávamos, sei lá, ofendendo muito, ou fazendo bulling com ele. E o juiz, um tal de Betinho, um banana, um frouxo que deve ser um brocha, manda a torcida sair de onde estava. E enquanto não saísse de onde estava, atrás do banco do Mogiano, não começava o jogo.

E não adiantou nossos jogadores reclamarem com ele, nem nossos diretores, nem nada. Tivemos que sair dali e…parar de xingar o time adversário.

Para mim, isso é o fim. Lá na gambazada, só faltam entrar na quadra. Ninguém fala nada. Em Santos, igual, ninguém fala nada. Mas no Palestra não pode. Somos os sujos, os italianinhos. Não somos do time do povo. Todos têm raiva da gente.

No intervalo, alguns torcedores mudaram de lado e foram para trás do banco do Mogiano. E o árbitro não queria começar enquanto os torcedores não saíssem dali. E para piorar, chamou o policiamento e disse que estava sendo ameaçado por dois torcedores, que foram retirados do local. Os dois torcedores não fizeram ameaça nenhuma. E foram arbitrariamente colocados para fora de sua própria casa.

Depois disso, murchei. Peço desculpas aos jogadores, mas não consegui dar um piu no 2º tempo. Não deu para mim.

Para o técnico do Mogiano, já dei meu recado na quadra. Um cara que não aguenta pressão de meia dúzia de pessoas que o ofendem em um ginásio, vai morrer treinando o Mogiano mesmo. Não nasceu para ser profissional de esporte competitivo de alto nível.

Para o árbitro, meu mais profundo ódio e repúdio. Um filhote da ditadura, um homem que deve sonhar todo dia com a volta dos anos de chumbo. Um cara que deve ter pau pequeno, deve ser um brocha e um frustrado. Tem a famosa “Síndrome do Pequeno Poder” e resolveu foder um dos atos mais bonitos e mais dignos da cultura brasileira: torcer.

A cada dia que passa somos mais tolhidos em nosso direito de nos expressarmos. Se fazemos uma petição pública, somos taxados de idiotas. Se apoiamos a manutenção de um esporte no clube, somos moleques. Se xingamos um adversário, somos postos para fora do nosso próprio ginásio. Vivemos em tempos de autoritarismo. Pior: um autoritarismo travestido de democracia.

Triste. Muito triste.

 

 

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2 comentários em “Deprimente

  1. Jacob Gorender
    maio 20, 2013

    Não sou Palmeirense mas aproveito para elogiar a sua redação a e organização do site / blog. Abs

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Informação

Publicado em maio 18, 2013 por em Quando a bola não rola.

(Publicidade Gratuita até 20/05/14) #AvantiBasqueteSEP

@ArqPalestrina

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