Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

#12dejunhode1993

time93

Por João Malaia (@ArqPalestrina)

Meu pai, o verdadeiro João Malaia, é português. Torcedor do Sporting. Fugido da guerra em Angola, local do meu nascimento, veio parar no Brasil para trabalhar na Embraer. Isso se deu no início de 1976. Eu nasci em 1974, ano da Revolução dos Cravos. Cheguei no Brasil em 1976, ano do nosso último caneco até o dia 12 de junho de 1993.

Como todo torcedor fanático, meu pai precisava escolher um time no Brasil. E escolheu o verde e branco, assim como era o Sporting. Mas não foi só o verde que trouxe a identificação. Meu pai é de uma família humilde, do Algarve, região mais pobre de Portugal. E como torce para o Sporting, odeia essa babaquice de identificação de um determinado time com a massa, com o povo, como acontece com o Benfica. Por isso, jamais poderia ser gambá.

Cresci vendo meu pai assistindo futebol na TV e ouvindo no rádio. E fui ficando um fanático também. Passei o velho e muito nesse quesito. E percebia que ser palmeirense era uma coisa diferente. Enquanto ia crescendo, percebia que seria uma luta.

Não sou de família italiana, meu pai não conhecia nossa história para me contar as peripécias do passado, a luta pela existência, os canecos levantados, a construção de um estádio… Fui aprendendo a ser palmeirense sozinho. E posso dizer, tudo conspirava para que eu escolhesse outro time.

Quase não tinha amigos palmeirenses, na escola um ou outro. Me lembro que do pré até a oitava séria, só o Bola era palmeirense fanático na minha escola. No Ensino Médio também era foda. Do meu ano, era o único fanático. E eu, assim como qualquer criança e adolescente da época que fosse palmeirense fanático, era muito zoado. Mas muito mesmo.

Vamos combinar: passamos vexames difíceis de engolir. Os que mais me marcaram foram a derrota na final para a Inter de Limeira, as eliminações para Bragantino (2) e Novorizontino. Essa última com retoques de crueldade. Um zero a zero com a Ferroviária de Araraquara, no Palestra.

Depois desses jogos, fazia questão de sair com a camisa do Palmeiras, ou da Mancha. Ia aprendendo que aderir a uma coisa, com força, com luta, é uma batalha diária. Se a molecada tinha poster de campeão na parede, eu tinha de campeão do 1º turno, tinha foto de jogador, tinha foto do Palestra lotado, tinha foto da Mancha.

Muitos amiguinhos gambás, muitos pais gambás de amiguinhos gambás, muitos professores gambás, todos zoavam e muito. Sem dó nem piedade. Lembro de pai de amigo meu me ver chorando com 11 anos por causa de uma derrota do Palmeiras e tirar sarro de mim pesado. Quanto mas eu chorava, mais ele zoava. Lembro de quando fui achincalhado pela escola inteira quando entrei com a camisa do Palmeiras, após o empate com a Ferroviária.

Mas no meio desse bando de filha da puta, havia também gente importante. Dercindo, meu professor de tênis. Palmeirense doente. Chico, dono da lanchonete perto da minha escola. Palmeirense doente, me levou no primeiro jogo no Palestra da minha vida. Foi falar com meu pai para me levar de Kombi, para ver Palmeiras x Grêmio, tinha eu 16 anos. E Tia Paula. Essa a personagem mais importante da história de hoje.

Tia Paula era descendente de italiano. Paulistana. Portanto, palmeirense. Teve a infelicidade de se casar com um gambá, gente muito boa. Mas gambá. Doente. Eles tiveram dois filhos, os dois gambás. Todos morávamos no mesmo prédio, em São José dos Campos. Perdi a conta de quantas vezes eu fui zoado pelos três daquela família. E Tia Paula segurando a bronca. Palmeirense, alimentava minha paixão, ostentava a fibra palestrina. Chorei muito no colo da Tia Paula. Parecia que só ela entendia meu sofrimento.

A vida é foda. Ao final de 1992, quando terminei o Ensino Médio, meu pai recebeu uma proposta de trabalho em Portugal. E todos fomos para lá. Naquela época, eu odiei. Era para fazer a faculdade aqui no Brasil. Não queria ir. Comecei a juntar dinheiro para voltar ao Brasil. Trabalhava lá, estudava Comunicação Social, mas com olho aqui.

E nessa época não tinha internet, não tinha um monte de canal a cabo, transmissão ao vivo do Brasil, nada disso. A maneira mais rápida de saber dos resultados era o telefone. Notícias escritas, só dois dias depois do jogo, às vezes três, em pequenas notas nos jornais esportivos portugueses. Um sofrimento.

1992 já foi foda. Acompanhar todas as mudanças, a chegada da Parmalat, ninguém sabia explicar nada. E eu juntando dinheiro para voltar. Queria acabar o 1º ano da faculdade para voltar para o Brasil pelo menos com isso concluído. As aulas acabavam no final de junho.

Eis que chega o dia 12 daquele ano. Confesso que a primeira partida me deixou desanimado, face a tantas derrotas que havia acumulado na cabeça. Ser campeão estava tão distante quanto o Brasil. Liguei para Tia Paula, ligações caríssimas, de 10 em 10 minutos e ia sendo informado, ouvia pedaços do jogo. Na prorrogação, fui para o banheiro. Sozinho. Não rezava, nem orava, nem nada. Já havia quebrado meu contrato de fé com todos os santos, todas as igrejas e todas as religiões durante a fila. Só me restava o Palmeiras.

Eu só pedia aos deuses do futebol. Só pedia isso. Só queria que os milhões de palmeirenses tivessem um dia de glória, um dia de redenção, um dia após mais de 16 anos. Cronometrei os dois tempos. O intervalo, os acréscimos. Uma vida de luta, de enfrentamento, de adversidades, de uma verdadeira prisão de sofrimento passaram pela minha cabeça.

Liguei de novo. Tia Paula atendeu. E me disse a frase que jamais vou esquecer e que me deixa com os olhos cheios d’água a cada vez que me lembro:

– Tia, fala , tia…

– Joca… pode comemorar, meu filho… esse título é seu… é nosso! Acabou, Joca! Acabou!

Depois disso, não me lembro de muita coisa. Caí no chão, chorava muito, ouvia ela falando 4 a 0, juro que não acreditava, não importava.

12 de junho de 1993. Na solidão vivi a maioria dos meus momentos de sofrimento do Palmeiras. Na solidão comemorei o título e exorcizei todos os meus demônios da infância e da adolescência. Lá em Portugal. Nem as imagens dos gols passaram. Comemorei ali na hora com a Tia Paula, mas precisava desligar o telefone. A conta já havia explodido.

Depois, fiquei sozinho, em casa, imaginando a galera nas ruas, as imagens na televisão. Apesar de não estar lá, tudo havia valido a pena. Toda a luta da infância, todas as vezes que me chamaram de otário, que menosprezaram meu amor pelo clube, que me sacanearam, que tripudiaram de mim, tudo isso que enfrentei me fez ser o que sou hoje.

Por isso é que eu te amo desse jeito, Palmeiras. Sem você, jamais seria quem sou hoje. Viveria tudo de novo se fosse preciso.

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10 comentários em “#12dejunhode1993

  1. palestramania
    junho 12, 2013

    É de encher os olhos junto com você João.
    12-06-1993 um dia para ser lembrado para sempre!

  2. Felipe Turlão
    junho 12, 2013

    Sensacional! Todos têm uma história neste 12 de junho e é maravilhoso poder ler cada uma delas. Que este dia dure umas 72 horas, no mínimo!

  3. siro casanova
    junho 12, 2013

    Porra João , quer me fazer chorar de novo ???

    siro

  4. Rodrigo Alonso
    junho 12, 2013

    Espetacular relato meu irmão. Somos eternos devedores do Palmeiras,sem palavras.

  5. Kleber M
    junho 12, 2013

    Um dia inesquecível, João! Pra esquecer os anos anteriores de amargura… Saudade daquele timaço, e de cantar eô-eô-Evair é o terror! Esses bons tempos hão de voltar, meu amigo!

  6. Flavio Santos
    junho 15, 2013

    Parabens João !! Esse foi nosso carma que exorcisamos da melhor maneira possivel, mas vem ca ?? Dercindo de SJC?? Abraços.

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Informação

Publicado em junho 12, 2013 por em Quando a bola não rola.

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