Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

Resistência como visão de mundo

Por Felipe Bianchi (@BianchiPalestra)

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Foi com entusiasmo e com um sincero sentimento de alegria que recebi o convite, por parte do Joca e do Marcelo, para escrever no Arquibancada Palestrina. Primeiro, porque desde que os conheci pessoalmente – inicialmente, trocando cumprimentos na arquibancada em jogos do Campeonato Paulista 2013 com três mil e poucos pagantes e, depois, compartilhando uma incursão pelo Paraguai para ver o Palmeiras enfrentar o Libertad, pela Copa Libertadores – nutro grande amizade e consideração por ambos. Segundo, pois o que me levou a conhecê-los foi justamente o apreço e a identificação que tenho pelo blog que, na minha opinião, é uma espécie de trincheira palmeirense contra o futebol moderno e seus componentes políticos.

Vale o registro: foi quando li o texto “Arquibancada: extensão da vida”, publicado em 31 de janeiro deste ano, que tive o estalo: “Tenho que conhecer esses caras!”. Muito do que está escrito ali é exatamente o que eu penso e tive aquela sensação rara e revigorante de saber, por um breve momento, que eu não estava sozinho. Além de serem doentes pelo Palmeiras, como eu, esses loucos não se furtam a relacionar todos os males do futebol com as mazelas da sociedade e achincalhar, a paus e pedras, qualquer indício de hipocrisia e canalhice. A compreender a indissociabilidade entre futebol e política, em defesa dos interesses do maior patrimônio do Campeão do Século XX: o torcedor palmeirense. Se o primeiro – o futebol – é um amor obsessivo e uma herança histórica na vida de todos nós, o segundo – a política – é o que o explica. O futebol e também, basicamente, todas as outras coisas. O Arquibancada Palestrina, na minha visão, é isso: sociedade e futebol levados a sério, jamais reduzidos a entretenimento descartável e mera mercadoria.

Se esse é cartão de apresentação, penso, convém reproduzir abaixo um texto que escrevi há quase três anos, para um trabalho de faculdade (de Jornalismo), publicado também em um blog que costumava manter. Ressalta-se que o texto é de 2010, o que explica alguns de seus dados anacrônicos. O que chama atenção, entretanto, é sua atualidade, cada vez mais assustadora. Segue:

De norte a sul, clubes tornam-se, da noite para o dia, mais uma filial da Red Bull. Aperta-se o cerco à festa das torcidas e, cada vez mais, coloca-se a tradição do futebol abaixo dos interesses comerciais. A espetacularização capitalista de um dos esportes mais anárquicos do mundo – o qual se joga com garotos (ou garotas) na rua e uma bolinha feita de meias (ou papel) – transforma o futebol em uma mercadoria consumida de forma cada vez mais passiva.

O futebol não é uma ilha, alheia a sistemas econômicos e políticos. Tampouco é democrático em seus aspectos políticos, como gostariam os fãs do jogo. A gradual transição dos clubes para empresas, a lógica de mercado como modelo de gestão e toda a rede bilionária que envolve o marketing e a mídia geram muito lucro. Mas ao torcedor, apaixonado pelo calcio, tem um altíssimo preço.

Os ingressos são cada vez mais caros e o horário dos jogos fica à mercê da vontade dos senhores da televisão. Na Europa, já são comuns os protestos pelos jogos em dias atípicos (segunda-feira em Portugal e Espanha ou sábado na Itália, por exemplo), também causados pelos mais arbitrários interesses comerciais. Mas talvez o maior prejuízo de todo esse processo seja o fim do amor à camisa, que é sem dúvidas o ingrediente mais passional e valoroso do jogo.

Exemplos recentes não faltam, como a venda do Grêmio Barueri para a cidade de Presidente Prudente, alterando inclusive o nome do time (transação que parece estar fazendo escola, inclusive), ou as medidas policiais que geraram a campanha internacional “Pirotecnia não é crime”, encampada por diversos grupos de torcedores. As cadeiras substituem os degraus e, se depender dos poderosos, a atividade de ir a um jogo de futebol, lazer historicamente popular, se equiparará a ir a um espetáculo de teatro ou cinema, tendo seu acesso restringido aos que têm condições para tanto.

Os torcedores, dentro de seus direitos e representando o interesse das classes populares, se manifestam na tentativa de chamar a atenção e defender o que não pode ser nem vendido, nem comprado: a tradição. Cabe ao público levar o debate adiante, inclusive fora de campo, a fim de refletir importantes questões sociais. Enquanto isso, o futebol continuará sendo a paixão dos torcedores, porém crescerá, à mesma medida que o número de clientes do pay-per-view, a quantidade de saudosistas e nostálgicos. Estes se lembrarão de seus eternos ídolos, que amavam a camisa que vestiam, e das festas nas arquibancadas repletas de povo, nas quais não se distinguia muita coisa além da cor da camis. Sobretudo, o bolso.

Na Dinamarca, bandeira da torcida questiona: "Por que tudo tem que ser tão chato e cinza?"

Na Dinamarca, bandeira da torcida questiona: “Por que tudo tem que ser tão chato e cinza?”

Pois este, senhores, é minha modesta contribuição para apresentar-me ao Arquibancada Palestrina, com o qual pretendo colaborar a fim de promover e provocar, com autonomia e honestidade, o debate e a reflexão não apenas sobre o Palmeiras e o palestrino, mas também sobre nosso lugar e papel na sociedade – e disso, nós, palmeirenses, podemos falar sem constrangimentos (não custa nada provocar aqueles que venderam a alma). Somos torcedores que não abrem mão de valores e princípios e, para nós, a resistência, dentro e fora da cancha, é questão de visão de mundo.

Viveremos e venceremos! Avanti Palestra!

Obs 1: a primeira foto é da torcida do Salzburg (Áustria), em protesto contra a Red Bull após a transnacional comprar o clube. Sobre o tema, vale conferir a videorreportagem de Gustavo Hofman (ESPN Brasil), sobre a alternativa que leais torcedores adotaram para resgatar a tradição e a história assassinadas pela Red Bull. Assista.

Obs 2: adeus e obrigado, Djalma Santos! 

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5 comentários em “Resistência como visão de mundo

  1. Claudio Longo
    julho 25, 2013

    Boa tarde a todos, parabéns pelo texto Bianchi, foi uma resenha correta de como o processo de “profissionalização ´´, que temos em vigor em diversas praças mundiais, esta destruindo as raízes do esporte que nunca teve barreiras em todas as circunstancias, da vida humana, lembrando que em plena segunda guerra mundial, em plenos campos de concentração, militares e civis presos, disputavam não tão raras , partidas de futebol , que tinham como trio de arbitragem os próprios guardas , fato que não restringe o futebol em qualquer oportunidade , sendo um evento que une pessoas pela paixão, pelo apego tradicional de cores e distintivos, pela regionalização, pelos credos, pelos apegos políticos e ideológicos, enfim , a todas as atividades humanas, durante o dia ou durante a noite!

  2. Claudio Longo
    julho 25, 2013

    João Malaia, como vai? Como vai seu Pai, esta melhor? Aqui em São Paulo estamos tendo uma semana típica perante ao frio que se parece aos outonos Europeus, inclusive aproveitando a oportunidade de parabeniza-lo pelo convite ao ilustre palestrino Felipe Bianchi, que domina o poder de transcrever em belos textos ,o pensamento que temos , perante a transformação indecente do futebol em uma peça moderna do descalabro “humano´´, em modificar para pior , a tradicional vocação do ser sociável, em aliar esporte, espetáculo e disputa em sua mais simples essência, o tradicional FUTEBOL!
    Como você já sabe sou Arquiteto de formação acadêmica , além de também ser Mercadologo, desta forma posso avaliar , mas sempre estudando profundamente o assunto, que é mutável inúmeras vezes, já que temos opiniões bem gabaritadas a todo momento, sobre o que ocorrera em la nostra casa, ALLIANZ PARQUE, que em minha modesta opinião, tem a mais privilegiada localização entre todas as praças, esportivas deste pais, mas que não absorve de forma correta aos diversos anseios , de muitos Palestrinos que atuam em diversas áreas, com opiniões que seriam de grande valida, em acentuarmos processos, muito mais agradáveis e dignos de uma massa alviverde, que é o maior legado do clube que esta há poucos meses de seu centenário. Ao meu ver a própria estrutura física da arena multiuso, oferece dois distintos espaços, que se bem utilizados, teriam ocupações distintas, sendo que no primeiro anel, sem as tradicionais cadeiras, no setor atrás dos gols, o publico com menor renda estaria confortavelmente instalado, abrigando-se contra as intemperes , além de estar mais próximo da linha de fundo , sendo que os dois restantes setores , no centro do gramado , poderiam manter somente em um dos lados as famosas cadeiras , destinadas aos públicos rotulados familiares, sendo que do oposto estariam os grupos torcedores não organizados , sem vinculo com as torcidas que ocupariam os postos já mencionados nos fundos da cancha.
    Os setores mais abastados, ocupariam os setores do segundo anel, que com privilegiada visão , estariam ocupando cadeiras numeradas com valores mais altos perante ao primeiro anel, disponibilizando-se ao referido publico , serviços e produtos , adequados aos consumidores que desejam despender mais , e com mais frequência.
    Hoje o referido departamento e Marketing, do Palmeiras mostra-se incompetente, em ate oferecer ao enxoval alviverde, o logo do empreendimento , para propagandear seu principal legado físico, que despertaria a qualquer espectador a curiosidade de conhecer o referido empreendimento , mas é difícil fazer algo quando ate os argumentos que levaram ao CEO Brunoro, destruir as modalidades esportivas que mantinham viva a denominação Sociedade Esportiva, são frágeis, como a capacidade de avaliar as circunstancia e mercado que tem como legado 18 milhões de palmeirenses!

    • arquibancadapalestrina
      julho 25, 2013

      Claudio, meu pai vai bem, obrigado. Vai se recuperando. Precisamos levar essas ideias aos responsáveis o quanto antes. Antes que sejamos surpreendidos com uma arena em que se privilegiam os abastados e que se tolhe o livre direito de torcer. Bom saber que podemos contar com você nessa luta.

      Quanto ao Felipe, é dos nossos: revolucionário palestrino. Está em casa!

  3. Claudio Longo
    julho 26, 2013

    Boa tarde a todos, João há uma diretoria que hoje assume a responsabilidade de administrar junto a WTORRE, os assuntos pertinentes a ALLIANZ PARQUE, onde Junior Gottardi, e Ricardo Galassi, que além de conselheiros, possuem os tramites que de forma direta em contato inclusive com a parceira AEG , pode avaliar a implantação do sistema stehplatz, que permite a retirada de acentos , oferecendo ao publico mais flexibilidade e volume, que são praticadas nas praças esportivas da Alemanha, já algum tempo, lembrando que a ALLIANZ PARQUE, não esta no circus da FIFA para a copa para toscos do ano que vem , desta maneira não teríamos interesses, no evento em si , mas em espetáculos paralelos que atrairia, turistas , além de treinamentos simulados, ou qualquer medida que renda dividendos ao Palmeiras, desta forma fica a sugestão, e um alerta , hoje já estamos em Agosta é não temos sequer o logo da ALLIANZ PARQUE no enxoval, e muito menos o patrocinador máster, determinando que há uma gestão letárgica, no clube, pois só nomes não adianta promover festas, a capacidade de administrar o Palmeiras já é visivelmente frágil, os demais clubes estão se planejando para 2014 , no inicio do primeiro semestre , e o Palmeiras em pleno meio do segundo caminha a passos largos ao ridículo papel de coadjuvante em pleno centenário , mera sintonia do almofadinha acomodado, pois nós dois já sabíamos, o enredo, um abraço!

  4. Isaias Ladislau
    janeiro 7, 2015

    Claudio Longo, tudo bem? preciso do seu contato.
    Isaias Ladislau
    isaias@orionservicos.com

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Publicado às julho 24, 2013 por em Quando a bola não rola e marcado , , .

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