Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

É uma luta pela nossa existência. Nos perdoem.

Faz tempo que não escrevo para o Arquibancada Palestrina. Vários motivos. Não vêm ao caso. O que vem ao caso é o motivo que me leva a escrever depois de tanto tempo. Sempre afirmei que escrevo para mim, e que fico muito feliz que existem pessoas que lêem, independente de gostarem ou não. E o motivo que me leva a escrever foi talvez o fenômeno mais desolador que já vi em nosso estádio de futebol, seja no velho Palestra ou no novo Allianz. Seja mesmo na casa alugada do Pacaembu.

Foi no Pacaembu que vi uma cena lamentável pela primeira vez. Quando a torcida do Palmeiras se dividiu tendo como mote o apoio ou não a Valdívia e depois o apoio ou não a Paulo Nobre. Foi horroroso. Estava lá, no Pacaembu e vi setor Amarelo contra setor Verde. Mais de uma vez. Lamentável.

Mas neste sábado, o fenômeno conseguiu superar os anteriores. O assunto é demasiado polêmico e, como diz o parceiro Barneschi, não se posicionar é se posicionar. E o que está acontecendo merece um posicionamento e uma reflexão mais aprofundada.

Vamos pensar em uma coisa bem simples. Para formular o pensamento vale fazê-lo em forma de pergunta. O que leva um membro de uma torcida organizada, uma pessoa que faz de sua ida ao estádio um dos momentos mais importantes de sua existência, se sentar e deixar de fazer exatamente o que mais gosta: cantar, pular, vibrar e apoiar o time?

O que leva um conjunto de pessoas a pagar por um ingresso caro e não fazer o que mais gosta? É justamente um ideal. Um ideal de busca para que o Avanti, plano de sócio-torcedor que teve aumentos absurdos, não fique tão caro. Foi uma reação a um aumento de quase 60% no plano que a maioria tenta pagar. Aquele que se pagava R$70,00 e tinha direito ao setor Gol Norte, caso não se esgotassem.

Podemos discutir aqui precificação, elitização do futebol, higienização dos estádios e outros fenômenos. Mas não é isto que me interessa no momento. Interessa não só refletir sobre as atitudes dos torcedores ligados à Mancha Verde. Mas também dos torcedores que hostilizaram a torcida quando o Atlético Mineiro passou a vencer a partida.

Muitas vezes, mas muitas mesmo, nos últimos anos, acompanhei o Palmeiras pelas canchas do Brasil afora. E muitos jogos em casa. Cansei de me esgoelar no meio da Mancha Verde, cantando sem parar, muitas vezes quando o time perdia. Olhava inconsolável para outros setores do estádio, na maioria todos sentados, reclamando, vaiando. E nós ali, cantando. Me sentia como que responsável pelo brio do time em campo. Se aquele bando de imbecil não cantava, eu ia me esgoelar para ver se eles pegavam no tranco.

Foi assim que fiz muitos amigos pelas arquibancadas. Marcelo, Bruno, Pedro, Vanessa, Caio, Gustavo, Cholo, Jessica, Fernado, Messias, Rodrigo e tantos outros que não sei o nome, mas que conheço de tanto tempo que vejo ali. Sempre se esgoelando pelo time. Palmeiras perdendo, jogadores sem jogar porra nenhuma e a gente lá, cantando e apoiando, enquanto o resto do pessoal cagava e andava. Pior, vaiava para piorar a situação.

Beleza, tio. Cada um faz o que quer e a minha parte eu sempre fiz. Sempre estive no meio daqueles doidos que não param de pular. Fico mal quando não consigo ingresso para este setor. Prefiro nem ir. Mas neste sábado foi diferente.

Infelizmente, por mais que tenha doído no fundo da minha alma (e não pensem que não doeu; doeu e muito), eu não cantei. Adotei a postura dos companheiros que sempre estiveram comigo no estádio. Alguns deles nem concordavam com a postura, mas eu resolvi adotar. Depois de 25 anos de arquibancada indo a jogo e cantando por 95% do tempo em todos os jogos que estive, me senti no direito de assumir aquela postura de não cantar. Não cantar em protesto ao aumento abusivo dos planos do Avanti. Simples.

E quando estava ali, doído, comprovando minha tese de que a Mancha Verde é o coração da torcida do Palmeiras (na verdade as grandes organizadas são o coração de suas respectivas torcidas nos estádios), observava o silêncio dos outros setores. Como sempre, não cantam, ou quase não cantam. Não tem alma. São espectadores. Não torcem, ou melhor, não vivem o jogo.

Em sua insgnificância, não conseguiam viver o jogo, nem participar dele. Não conseguiam por que não acreditam nisso. Ser torcedor é um ato de fé. Só quem tem muita fé não desite de cantar nem um minuto e se entrega durante 90 minutos ao seu clube. E como não acreditam em suas próprias forças, ficavam ali, quase mudos. E quando o time tomou um gol, em posse de sua inoperância em fazer o estádio tremer, passaram a ofender aqueles que acreditam no poder de transformação de um jogo através do comportamento na bancada. Os incrédulos passaram a cobrar os crentes.

Mal sabiam que naquele dia a fé estava demasiado abalada pela perspectiva de não poder mais ir àquilo que consideram como seu culto: o jogo do Palmeiras. Aqueles que não têm problemas em abrir as carteiras para assistir ao espetáculo de futebol sentados e poupando suas gargantas para o dia seguinte, cobravam que os que eles mesmo chamam de animais se comportassem com tais. Como o Barneschi bem colocou, esses coitados querem o pacote completo. Não basta a bola, o jogo em si. Querem o espetáculo da torcida que eles mesmo são incapazes de fazer. Mas para nós é diferente.

Nós não vamos ali atrás de pacote. Nós vamos ali viver os momentos mais sagrados da nossa existência. E se nos calamos e não nos portamos como sempre nos portamos na bancada, foi por estarmos com medo. Medo de não conseguirmos mais frequentar aquilo que nos é mais sagrado, devido à majoração incessante do preço dos ingressos. Medo de não poder mais viver em plenitude. Há que compreender que isto é maior que o resultado de um jogo. Nos perdoem.

João Malaia (Joca)

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Um comentário em “É uma luta pela nossa existência. Nos perdoem.

  1. Kleber
    maio 12, 2015

    Não tem que pedir perdão de nada, meu caro. O protesto é justo. Quem tem de pedir perdão é essa multidão idiota que xingou a Mancha, a maioria sem saber o porquê. Eu não vou muito ao estádio, moro no interior, mas sábado estava lá pra torcer e fiquei com vergonha, me parece realmente que essa torcida nunca será unida pelo time

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Publicado em maio 11, 2015 por em Uncategorized.

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