Arquibancada Palestrina

Um blog de Palmeirense de arquibancada

A pergunta que deveria calar

Fazia tempo que não escrevia para este blog. Uma série de compromissos de trabalho me impediam de ter tempo, ou mesmo paciência para escrever.

Hoje me deu na telha. Fui motivado por uma pergunta feita por um perfil de Twitter (Diário das Torcidas – @tweettorcidas), que parece fazer uma pesquisa sobre torcida e comportamento do torcedor. A pergunta é a seguinte: “Você acha que as organizadas deveriam acabar?”. Li a pergunta e fiquei perplexo. Por vários motivos.

Defendo a participação das torcidas organizadas no futebol. Elas ajudam a transformar o futebol em um espetáculo de entretenimento único. É capaz de fazer com que os presentes ao jogo simplesmente ignorem o que se passa em campo para admirar o espetáculo das organizadas nas arquibancadas. Ou se está nela, ou se admira seu espetáculo. Todos sabem disso: quem nela está, quem está vendo, os jogadores, os árbitros, os dirigentes, as televisões.

Parece inócuo falar deste aspecto. Ainda existe gente que é capaz de fazer esta pergunta. Pior. Tem gente que responde sim a esta pergunta que sequer deveria fazer parte de qualquer tipo de concepção futebolística deste espetáculo esportivo. Ou de concepção de vida mesmo. Explico.

Façam um esforço, ainda que inútil, de pensar um jogo de futebol sem qualquer tipo de participação das torcidas organizadas. É impossível pensar que é um espetáculo diferente de qualquer outro. O que teríamos? Pessoas pulando aleatoriamente? Gritos sem sentido coletivo?

Quem iria bolar as músicas e colocá-las em prática? Como se tornariam mantras de nossas vidas sem a ação das organizadas? Para onde você iria olhar depois de uma bola na trave de seu time, no espaço de tempo entre a batida na trave e a execução do tiro de meta? Para onde as câmeras de televisão apontariam para fazer seus comerciais de televisão, ou para mostrar “o espetáculo das torcidas” durante as partidas?

O que teríamos? Uma espécie de panelaço! Cada um gritando por si algo sem sentido e sem ser ouvido, a não ser por um ruído ensurdecedor ao qual não se pode compreender e que revela a incapacidade de se organizar socialmente. Que tristeza. Que forma de ser igual aos outros por um nivelamento tão baixo.

Certo. Aí vivemos em uma sociedade absolutamente entranhada de violência. Temos programas na televisão diariamente fazendo culto à violência e vivendo às custas dela. Temos todos os setores da sociedade com gente praticando toda a arte de violência. Temos parlamentar fazendo elogios a torturador em pleno plenário. Temos padres, pastores, médicos, políticos, taxistas, professores, enfermeiros, advogados, juízes, artistas de cinema e teatro e tanto outros sendo estupradores, assassinos, pedófilos, racistas, xenófobos, homofóbicos, misóginos, sexistas, machistas, elitistas. Temos de tudo o que podemos imaginar de violento nas mais diversas instituições da sociedade brasileira.

Mas a única instituição que é colocada em causa como fator motivador da violência é a torcida organizada. Ninguém pergunta se as igrejas devem acabar, se o congresso deve acabar, se os hospitais devem acabar, se as faculdades devem acabar, se os tribunais devem acabar. Mas com a torcida organizada, sim: ela deve acabar?

Ao fazer esta pergunta, mostramos a nossa incapacidade de compreender as causas da violência ou de qualquer outro problema que uma instituição possa vir a ter. Mostramos nossa insensibilidade de compreender os benefícios que a organização de grupos sociais pode trazer para a sociedade em seus mais diversos aspectos. Propor o fim da organização é propor o fim do homem. Do ser social. Da nossa própria existência.

João Malaia

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@ArqPalestrina

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